8 de agosto de 2022
Colunistas Walter Navarro

Nunca te vi, sempre te amei

Hoje, 29 de junho de 2022, faz uma semana que Danuza Leão morreu, pela segunda e última vez. Hoje, 29 de junho de 2022, faz 38 anos que Danuza Leão morreu pela primeira vez, quando perdeu seu filho, Samuca, num acidente de carro.

Já perdi muita coisa, muita gente, para saber que perder é ganhar. Por exemplo, no futebol, quando o Hulk perde um gol feito é porque ele vai fazer outro. Óbvio. Não fosse o gol perdido, ele não construiria a jogada para o outro gol, o feito. Tudo tem seu momento. Quando você encontra alguém na rua, sem combinar, é porque as duas pessoas saíram cada uma de um lugar diferente, ao mesmo tempo, antes ou depois, para que o encontro aconteça, naquele exato momento. E nem se assustam com isso!

Nunca encontrei, nunca mais vou encontrar Danuza. Perdi de vez, uma vez, várias vezes e para sempre.

E já comecei nascendo 29 anos depois dela.

Logo, perdi a mulher que eu sempre quis e nunca vi, nem de longe. Juro que, tivesse a chance, eu “pegaria” a Danuza aos 20 anos, quando ela tinha 49. E também aos 59 e principalmente aos 69.

Linda, gostosa, inteligente, rápida no gatilho. Bocão! Pernas… O encontro das pernas… Magra. Ótimo humor, engraçada, politicamente incorreta, elegante, fatal e, tenho certeza, cheirosa e saborosa. Não necessariamente nesta desordem.

E como escrevia! Que afrodisíaco, meu Deus! Misericórdia! Piedade!

Dia 25 de setembro de 2016, escrevi um e-mail para ela. O assunto era: “Oi, Danuza chérie”.

De Walter Navarro. Para: danuza.leao@uol.com.br
Perguntei: “Este e-mail ainda funciona? Ele está numa crônica tua de 5 de outubro de 2003, na Folha de São Paulo: ‘Dançar: o problema?’. Já trocamos e-mails há alguns anos e, hoje, relendo esta, me deu vontade de conversar. Um beijo, Walter Navarro BH/MG”.
Dia seguinte, às 10h27: De Danuza Leão leao.danuza@gmail.com Para: Você…
Vejam o que ela escreveu, tive até uma ereção matinal: “Na verdade, o novo é leao.danuza@gmail.cm Enviado do meu iPad”.
Na hora, imaginei: Danuza nua, de cócoras, querendo, na cama, em Paris, segurando uma taça de champagne e me sussurrando: “Na verdade, o novo é leao.danuza@gmail.cm, gostoso!”.
Ou então, no tapete de um hotel em Veneza, ainda mais nua e pelada, pernas abertas, me oferecendo um vinho tinto, lambendo a taça e dizendo: “Na verdade, o novo é leao.danuza@gmail.cm, tesão!”.
Eu e Martinho da Vila já tivemos mulheres de todas as cores, de várias idades, de muitos amores.
“Com umas até certo tempo fiquei, pra outras apenas um pouco me dei. Já tive mulheres do tipo atrevidas, do tipo acanhadas, do tipo vividas. Casada carente, solteira feliz. Já tive donzela e até meretriz. Mulheres cabeça e desequilibradas. Mulheres confusas, de guerra e de paz”.

A mistura fina de todas daria uma Danuza.

E ela ia gostar de mim. Sou a mistura feia de todos seus ex-maridos. A começar pela profissão dos três.

E mais! Se o primeiro era 20 anos mais velho que ela; o segundo era 200 arrobas mais pesado que ela e o terceiro, 20 vezes menos que ela; por que não eu? Danuza também perdeu.

Musa Leão!

No início deste texto, eu disse que já havia trocado e-mails com Danuza. Procurei e não achei. Devo ter enviado de outra conta.

Foi em 2000. Eu tinha uma revista, a “Dois”, que não chegou ao número três… Eu queria fazer uma entrevista com ela. Danuza declinou, educadamente, dizendo que não dava entrevistas… Além disso, me proibiu: “Por favor, não me compare, não me chame de ‘Rubem Braga de saia’, quem sou para chegar perto dele?”.

Danuza “chérie”; chegou sim, se bobear, ultrapassou o mestre. No mais, te prefiro sem saia, sem calça, sem calcinha; numa banheira em Marrakech, numa varanda em Capri ou de Ipanema, a bordo de um vinho branco, me perguntando: “Queres lamber queijo no meu corpo nu?”.

Mas poderia ser agora, no meu quarto, em Barbacena, declarando para sempre e nunca mais: “Walter, Na verdade, o novo é leao.danuza@gmail.cm, me possua!”.
Perceberam que, de tão excitada, ela escreveu “gmail.cm”, em vez de “gmail.com”? Foi por isso que a gente nunca se encontrou. Que saudade de viajar com você, de quase tudo com você.

PS: E vê se para com esta estranha mania de morrer. Volta pra mim, mesmo que em algum lugar do passado.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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