
When she passes, each one she passes goes: Uh!
“Garota de Ipanema” é música de velho babão. Me disseram, dizem, insistem, são enfáticos e até agressivos. E lá fui eu conferir. Em português e em inglês. Em diversas vozes. Com e sem a melodia. E a conclusão a que chego nesta manhã nublada, tão antigarotadeipanema, é, na preguiça de procurar uma palavra melhor, conclusiva: sim, “Garota de Ipanema” é uma música de velho babão. E nisso reside não sua graça, muito menos malícia; nisso reside sua melancolia.
Tem gente que sobe nas tamancas para reclamar. Diz que é machismo e objetificação da mulher. E tudo bem. Se esse tipo de esperneio a faz feliz, minha senhora, fique à vontade. Quem sou eu para limpar esse fel que escorre de sua boca? Aqui da minha condição de homem próximo dos 50 anos, contudo, peço humildemente que a senhora tenha compaixão tanto do poetinha quanto de nós, uns pobres-diabos de meia-idade que vislumbramos a exuberância da juventude feminina não com luxúria. Não!
Memento mori
Nem todos somos escravos de nossos instintos sexuais e talvez para isso esses cursos sobre masculinidade que estão na moda sirvam. Somos, isso sim, escravos da nossa condição humana. Envelhecemos. Nossa pança se avoluma. No meu caso, os cabelos caíram e a barba está cada dia mais branca. Há dias em que me perco na tristeza de vislumbrar o dia em que não estarei mais aqui para admirar a beleza da moça que vai à praia naquele gingado sedutor que não, não cobiço, minha senhora. Só admiro. A moça que é um memento mori ambulante e a música que é um lamento.
A baba que pende da boca, pois, não é de desejo carnal. Essa é uma visão empobrecida da masculinidade. Uma visão vulgar, carregada de uma sexualidade artificial. A baba que pende da boca é de… maravilhamento. De contemplação. O dia está lindo, na música. O mar, de um azul translúcido, acaricia em ondículas a areia da praia. E você está lá perto, tomando uma cervejinha, lembrando da época em quê, ah, em quê, quando passa uma moça assim esfregando na cara a juventude e esta verdade que relutamos em enxergar: depois de certa idade, o mundo não nos pertence mais. (Se é que algum dia nos pertenceu).
Só os poetas, porém, seriam capazes de expressar isso com uma leveza assim tão despudorada.
Fonte: Gazeta do Povo

