
Alexandre,
Lembro-me como se fosse hoje. Em 6 de fevereiro de 2017, dia que Michel Temer indicou o seu nome para o STF, eu disse:
– O governo Temer acabou.
No entanto, a minha frase estava errada. Ou melhor, ela estava incompleta: não foi apenas o governo Temer que acabou naquele momento. Foi o Brasil.
De fato, o governo Temer acabaria poucos dias depois, quando ele desceu à garagem do Palácio do Jaburu para uma conversa nada republicana com Joesley Batista. Uma perfeita imagem do inferno: o vampiro e o açougueiro bilionário falando de negócios no subterrâneo de Brasília. Quando aquele diálogo veio a público, Temer deixou de governar o Brasil. O poder real ficou até o fim com o general Etchegoyen – e com você, Alexandre.
Agora você, juntamente com seus companheiros Paulo e Andrei, é que foi flagrado em conversas não republicanas do Daniel Vorcaro. Mudaram os interlocutores – do açougueiro para o banqueiro –, mas a substância é a mesma.
Faz tempo que acompanho sua trajetória, Alexandre. Nem vou falar da época em que você advogava para gente altamente suspeita. Conheço gente que o conhece desde que você tinha cabelos e garante que o seu plano de vida sempre foi esse. Mas vou começar por um feito de alcance nacional: a abertura do Inquérito do Fim do Mundo, em março de 2019. Esse, a meu ver, é o seu maior feito, Alexandre: o assassinato do Estado de Direito no Brasil. E continua sendo cometido neste exato momento.
A partir daí, a lei deixou de valer no Brasil e foi substituída pela sua vontade – e a de seus chefes. Sim, porque você tem chefes, Alexandre. Assim como Vychinsky, Beria e Roland Freisler, você é um tirano sádico, mas não ousa desobedecer aos seus superiores.
Você condenou milhares de inocentes, você censurou milhões de pessoas, você destruiu milhares de famílias, você usurpou os poderes da República, você destruiu a Justiça e a liberdade e, como se não bastasse, você ordenou o assassinato de milhares de crianças no ventre de suas mães. Sua longa sequência de feitos mereceria um Nuremberg.
Al Capone foi preso por sonegação de impostos. Era um sádico, um assassino, um ladrão, um corrupto, um terrorista. Mas foi pego por lesar o Fisco. Você vai cair por causa de grana. Então eu me recordo das palavras proféticas do professor Olavo de Carvalho:
“Durante quarenta anos, os brasileiros deixaram, sem reclamar, que seu país se transformasse no maior consumidor de drogas da América Latina; deixaram que suas escolas se tornassem centrais de propaganda comunista e bordéis para crianças; deixaram, sem reclamar, que sua cultura superior fosse substituída pelo império de farsantes semi-analfabetos; deixaram, sem reclamar, que sua religião tradicional se prostituísse no leito do comunismo; deixaram, sem reclamar, que seus irmãos fossem assassinados em quantidades cada vez maiores, até que toda a nação tivesse medo de sair às ruas e começasse a aprisionar-se a si própria atrás de grades impotentes para protegê-la; deixaram, sem reclamar, que o governo tomasse as suas armas, e até se apressaram em entregá-las, largando suas famílias desprotegidas, para mostrar o quanto eram bonzinhos e obedientes. Depois de tudo isso, descobriram que os políticos estavam desviando verbas do Estado, e aí explodiram num grito de revolta: ‘Não! No nosso rico e santo dinheirinho ninguém mexe!’”
Você vai cair pelo menor dos seus feitos, Alexandre. Menor, mas ainda assim repugnante e indecente. Depois de ler as 218 páginas do relatório da PF – apenas a pontinha do iceberg sobre a sua associação com Vorcaro, Gonet e Andrei –, eu pensei na totalidade do mal que você já fez e vi nascer, no fundo de meu coração, a esperança de que esse mal seja punido.
A única pergunta que ainda me resta é: — Por que você não está preso?
Fonte: Gazeta do Povo

