
“Subimos ele adiante, eu em segundo/ Até que eu vi do céu as coisas belas/ Que o céu contém por um rasgo rotundo/ E então saímos a rever estrelas.” (Dante, Inferno, Canto XXXIV)
Li, há poucos dias, o depoimento do filho de dois terroristas americanos. Ele passou a infância na clandestinidade, pulando de disfarce em disfarce, aprendendo, aos quatro anos de idade, a despistar o FBI, enquanto os amigos de seus pais morriam em explosões acidentais ou deixavam bebês órfãos ao serem presos por assaltos e assassinatos. É uma história de ruína e tragédia. E, no entanto, assombrosamente, aquele homem continua, de alguma forma, professando a mesma fé sombria de seus pais.
Vi também, na semana passada, um jovem militante contemporâneo esquivar-se de condenar o estupro e o massacre de mulheres e crianças, porque cometidos pela facção que ele considera “do lado certo” da história. A cegueira não passou. O Monstro continua faminto.
Ao olhar para esses espelhos, percebo que a essência da religião sem Deus — o movimento revolucionário — jamais foi a justiça, a igualdade ou a paz. A essência era, e continua sendo, uma só: a morte dos inimigos políticos.
Diante disso, preciso reescrever minhas confissões.
Confesso que um dia acreditei na revolução como o único fim e que, por ela, julguei que todos os meios eram sagrados.
Confesso que não via o roubo como crime, desde que o produto da rapina servisse para alimentar a causa.
Confesso que não acreditava em Deus e, na suposta ausência d’Ele, fiz da minha própria vontade a lei e do ressentimento a minha oração.
Confesso que desprezava a fidelidade e a família, vendo nos afetos mais puros apenas mecanismos de controle da sociedade burguesa.
Confesso que, se fosse necessário para o triunfo da causa, trairia meus amigos, falsificaria a verdade e justificaria o derramamento de sangue inocente.
Confesso que romantizei o crime e transformei o homem violento em herói, cego para a dor de suas vítimas
Confesso que, como aquele filho de terroristas em sua infância em fuga, cheguei a olhar para o abismo; mas, diferentemente dele, pela graça do Altíssimo e pelo exemplo de amor e paz dos meus pais, tive os olhos abertos para a desolação da minha própria alma.
Confesso que vi o abismo devorar os que escolheram a espada revolucionária — como os melhores amigos do meu pai, que tomaram esse caminho e não voltaram —, enquanto o meu pai escolheu a vida, a construção de um lar e a doçura da minha mãe. Se estou aqui hoje escrevendo estas linhas, é porque o amor deles foi mais forte que a vertigem do massacre.
Confesso que sinto horror ao ver os novos doutores da barbárie justificarem o estupro e a tortura em nome de uma utopia de sangue.
Confesso que a inveja foi meu combustível, o medo, meu companheiro diário, e o rancor, minha única consolação.
E confesso, por fim, que nada disso era amor pela humanidade: era apenas ódio pela vida como ela é.
Por tudo isso, peço perdão.
Peço perdão ao amigo que caluniei, àqueles que ofendi, aos inocentes que ignorei e a você, leitor, que agora me lê.
Que Cristo nos liberte da religião do ódio, antes que a marcha dos ressentidos transforme o mundo em um grande campo de extermínio.
Fonte: Gazeta do Povo

