Piquenique em Paquetá

Tive um editor – hoje, um amigo de quem gosto muito – rigoroso com fotos. Nunca, em nenhuma hipótese, o fotógrafo que me acompanhava nas entrevistas poderia deixar aparecer a marca de algum produto. Na época, idos dos anos 1970, a propaganda em O Globo custava caro e o meu editor não facilitava, controlava os mínimos detalhes.

Mais de um vez, coitado do meu colega, lá se foi ele refazer o trabalho, pois, sem querer, aparecera junto ao entrevistado uma garrafa de refrigerante ou o símbolo de uma loja. Acabamos, o fotógrafo e eu, dois neuróticos que retiravam do cenário tudo capaz de comprometer a qualidade do trabalho.
Nossa relação profissional correu bem até o dia em que, num almoço oferecido por uma badalada atriz global, acabamos discutindo porque a anfitriã se recusou a retirar da mesa um pirex no qual um suflê exibia a sua estufada elegância. O fotógrafo cismou que pirex era marca e bateu pé: não tirava foto alguma. Eu – além de jornalista, dona de casa, íntima de todos os pirex da vida – argumentava que ninguém no mundo assaria um suflê tão lindo fora de um pirex re-don-do. Como sabemos, a ausência de ângulos é fundamental para um suflê crescer em beleza e sabor.
Enquanto rolava o bate-boca, o suflê, claro, murchou. A entrevistada irritou-se e o devolveu à cozinha. O fotógrafo, alegríssimo, fez as fotos e o editor, mais alegre ainda, publicou-as. Eu virei piada. Sempre que a atriz me encontrava dava boas risadas lembrando a ridícula cena do pirex.
Conto isso porque quase desmaiei com as fotos do café da manhã que o presidente Bolsonaro ofereceu a John Bolton, assessor de segurança do presidente Trump. Confesso o meu espanto. Além do climão piquenique em Paquetá – mesa sem toalha, sem louça, descontraída em excesso -, estavam à disposição embalagens de iogurte e de Tetra Pak de leite e de sucos. Divulgados 0800 urbi et orbi.
Claro, lembrei-me do meu amigo e ex-editor. Imaginei-o puxando os cabelos e afirmando que jamais fecharia o jornal com aquelas fotos. Sou obrigada a concordar. A Danone e a Tetra Pak deitaram e rolaram, nunca imaginaram uma propaganda internacional tão fácil. Até na capa de um jornal português apareceu a embalagem dos Danoninhos.
Que, aliás, valem por um bifinho. Mas isso, nem John Bolton nem os jornalistas lusos sabiam. Ao menos, até o momento.
Fica o registro para o próximo café da manhã ser noticiado comme il faut.
Se as indústrias se interessarem, posso enviar o número da minha conta bancária para futuros depósitos.

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