Personagem rara

Na última crônica dei a minha opinião sobre as próximas eleições presidenciais. Como sabem os que me lêem, não sou de esquerda, nunca fui, jamais serei. Na minha profissão, isso é considerado um desvio comportamental. Noventa e nove por cento dos jornalistas que conheço preferem Marx, o sabonete das estrelas das redações do Brasil.

Confesso, porém, que fiquei feliz com a reação dos amigos feitos ao longo da carreira. Não à toa, eu os respeito. Todos acolheram a minha declaração de voto em silêncio. Agradeço-lhes, aliando-me a eles na crença da liberdade de opinião e na rejeição à censura. Nunca podemos desistir de expressarmos as nossas convicções.
Claro, nem todo mundo é “pessoa de fino trato”, como se dizia antigamente. As respostas negativas ao meu posicionamento pró-Bolsonaro não foram de meus colegas de trabalho. Foram de conhecidos, gente nem tão próxima que eu possa classificar de amigo, nem tão distante que não se sentisse com a liberdade de me escrever. É sobre esses que vou falar porque, se algum antropólogo se interessar, eles são excelente material para uma pesquisa de comportamento.
Fui bloqueada por alguns. Sem mágoas, cada qual se relaciona com quem quer. Escutei duas amáveis e longas preleções, ambas em tom professoral, sobre a minha ignorância. Recebi um e-mail censurando-me, assinado por alguém que acha Trump o máximo, mas rejeita a direita brasileira. Bizarro. Nem eu, que sou fascista, nazista, dentista, pianista e arquivista, consigo encontrar alguma qualidade em Donald Trump.
Fui ofendida por um cidadão que não poupou adjetivos desagradáveis: reduziu-me a sub-nitrato de titica do cavalo do bandido. Conseguiu me irritar, devolvi no mesmo tom. Depois, arrependi-me. Um avô de meus filhos dizia que não devemos discutir com idiotas porque, se alguém passa e escuta o diálogo, não saberá quem é o verdadeiro idiota. Vovô tinha razão, banquei a tola.
Agora, vou pegar a minha malinha e passar um mês em outra galáxia. Já disse o que tinha a dizer, não darei mais palpites, não participarei de grupos contra ou a favor de ninguém, não irei a passeatas – impossível, moro em Portugal. Mas ficarei atenta às pegadinhas.
Só não garanto deixar de continuar protestando contra as urnas eletrônicas, nas quais não confio absolutamente, nem largar o pé do candidato Ciro Gomes, que conheci deputado da Arena, partido oficial da revolução de 1964. Hoje, ele realiza a proeza de, simultaneamente, ser um “coroné” do sertão e marxista histórico.
Impossível ignorar personagem tão rara.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *