26 de maio de 2022
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O fim de um tempo

Gonçalo Júnior, sobre a falência da Editora Abril

Não vou festejar o fim certo da Editora Abril por causa de uma laranja podre como a revista Veja.
A Abril é infinitamente maior que isso: fez o mercado de revistas migrar do Rio para São Paulo, estabeleceu um novo patamar de qualidade para o jornalismo em suas revistas femininas e de música, lançou dezenas de coleções de livros e de fascículos da melhor qualidade e povoou a minha infância e adolescência – e de milhões de brasileiros – com suas revistas em quadrinhos.
E não foi só a incapacidade de seus gestores de conduzirem a empresa na era digital, de criar mecanismos de sobrevivência, que destruiu esse império editorial.
A Abril começou a morrer quando fez uma opção suicida pelo pior do jornalismo com a Veja.
Optou pela direita ultrarradical e reacionária, exclusivamente porque teve seus interesses econômicos preteridos por um partido político – e eu sei bem do que estou falando – e dividiu o bolo de seus leitores ao meio. Passou a ser odiada, boicotada e combatida por essas pessoas, que têm lá seus motivos.
A Abril apostou no caos, no quanto pior, melhor.
De modo irresponsável e contra seus princípios democráticos. Acolheu a mentira, a calúnia e a difamação como sua trincheira segura, porém agonizante de desespero. Ajudou a disseminar o ódio e a estabelecer o caos político e econômico no país. Tornou-se golpista de primeira hora. E acabou desmoralizada e engolida pela ganância.
Mas há a Abril dos seus primeiros 40 anos, mágica, de excelência. É como assistir um cão raivoso agonizante no meio da praça. E eu lamento por tudo isso. De coração, pois eu amava tudo que a Abril fazia.

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