1 de julho de 2022
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Meu tio e a tartaruga

Conversando, via Facebook, com a amiga Monica Alencar, ela lembrou de meu tio Paulo, que é avô das filhas dela. Ou seja, a minha amada avó Maria é bisavó das filhas da Monica Alencar.
Há tempos não lembrava do tio Paulo, irmão mais velho de minha mãe. Ele fazia coisas impossíveis. Por exemplo, hipnotizava as galinhas que iam ser sacrificadas para virar cabidela. No tempo em que os Tiranossaurus Rex passeavam na praia de Ipanema, as galinhas do almoço chegavam à casa da gente vivas e cacarejando. Então, acreditem ou não, tio Paulo as colocava em alfa para elas não se assustarem com o destino que as aguardava.

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Na casa de minha avó, que foi a minha também e da qual tenho as melhores recordações, existia uma tartaruga. Um dia, tio Paulo comentou estar preocupado com a tartaruga. Achava que ela levava uma vida muito sedentária, caminhava devagar demais e precisa se exercitar.
A família tentou argumentar que tartarugas costumam viver 100 anos sem o auxílio de ninguém. Era melhor deixar o bicho em paz. Mas tio Paulo já havia colocado o olho nela. Ou seja, o destino da infeliz fora traçado.
Decisão tomada, todas as manhã, na maior disciplina, tio Paulo colocava a tartaruga sobre uma mesa que existia no quintal, virava-a de barriga para cima e começava a série de exercícios. Um, dois, três, quatro, puxa-a-patinha, encolhe-a-patinha, esquerda-direita, da-frente-de-trás. Um, dois, três, quatro.
Eu era menina, mas achei que a tartaruga terminava a série de alongamentos meio deprê. E que passara a andar ainda mais devagar. Dores musculares, esta tartaruga é uma molenga, decidiu meu tio, que continuou a rotina de malhação da tartaruga.
Um belo dia, em plena sessão de ginástica, a coitada faleceu. Tio Paulo insistiu que foi enfarte, um tipo de mal súbito. Problemas cardíacos de quem não estava habituada ao cotidiano saudável que ele lhe oferecia.
Minha avó nunca soube que num daqueles movimentos estica-encolhe-patinha-da-frente-patinha-de-trás, a tartaruga desprendeu do casco e,  pimba,  entrou em óbito. As partes, metade para cada lado, um filme de terror, foram imediatamente enroladas em folhas de jornal e escondidas na lata de lixo para o resto do clã não perceber. Tartaruga é mole mesmo, argumentava meu tio explicando o desaparecimento da ginasta, a danada andava era escondida para fugir dos exercícios.
Fui a única testemunha da tragédia, assisti da janela do meu quarto. Fiquei traumatizada.
Até hoje, detesto academias de ginástica.

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