Como continuar falando normalmente de futebol no meio dessa crise?


Nunca antes na história deste país, um técnico de futebol chutou o pau da barraca durante uma entrevista coletiva para falar de política. Questionado, há uma semana, sobre a possibilidade de adiamento ou cancelamento de uma partida do Coritiba, por conta da então vigente greve dos caminhoneiros, Eduardo Baptista, técnico do clube, deixou de lado aquelas respostas sempre iguais dos técnicos e desceu aos infernos do Brasil para tocar na ferida exposta do país: como continuar falando normalmente de futebol e data de jogo, no meio desse caos e dessa crise fantasmagóricos que nos lambem, sem sossego, com sua língua fervente e bifurcada da serpente política e social, ameaçando nosso presente e nosso futuro?
Cueca branca
A apenas cerca de 10 dias da abertura da Copa do Mundo, e quatro anos depois da humilhação jamais expiável gerada por 10 bolas engolidas a seco (sim, por que haveríamos de não somar aos 7 a 1 às três bolas enfiadas na já então arrasada baixa autoestima brasileira pela Holanda, que nos empurrou para um deprimente quarto lugar na Copa doméstica de 2014?), com que moral ou astral o Brasil de chuteiras entrará em campo na Rússia ou nas ruas brasileiras? A poucos dias para a seleção entrar em campo, contra a Suíça, o Brasil inteiro está inquieto mesmo é para adivinhar o nome do feto de Sabrina Sato, com uma forcinha dada pelo nosso jornalismo sentado, esse fast news rasinho, feito de pílulas curtinhas, pautado pelo Instagram, que tanto desinforma quanto deforma a natureza de nossas curiosidades. Às vésperas da Copa, pouco ou nada temos para saber da seleção.
Neymar está sentindo dores no dedo ou no pé pós-cirurgia? O casal Brumar está incentivando muita gente a ir para a cama, no dia dos namorados, com a lingerie autografada pelos dois, vendida na loja de departamentos na esquina? Alguém vai mesmo transar na data usando a renda preta da moça, remetendo ao cabelo amarelo ovo de Neymar ou à sua cueca branca com relevo em close na televisão? Tempos muito esquisitos esses, em que as bolas pequenas dentro das cuecas de um jogador na publicidade parecem estimular muito mais a torcida brasileira do que a bola grande do futebol rolando sobre os gramados russos numa Copa.
Hiena
Mudou a torcida, mudou o futebol brasileiro ou foi o patriotismo brasileiro de chuteiras que definitivamente subiu no telhado, a telha estava pobre e no chão havia um pântano construído por Temer, Marun e sua turma? Como nas palavras da desesperança apocalíptica de Eduardo Baptista, que importância tem, nesse contexto de um país em desconstrução acelerada, se alguém treina, joga ou ganha? Essas perguntas parecem aqueles discursos caricatos de engajados políticos revolucionários, amargurado, pregando a tristeza do mundo. Mas o pior é que aquilo que se tornou patético nesses dias foi o discurso entusiasta, e não o lamento repetitivo da hiena pessimista Hardy, do Lippy & Hardy: “oh céus, oh vida, oh azar!”
As coisas parecem tão turvas que até mesmo se o Brasil der uma volta por cima na Rússia e passar a limpo a brochada nacional de 2014, dificilmente as hienas hoje no poder e a Hiena-mor do Planalto irão poder faturar com isso, tamanha a profundidade de sua impopularidade. Como se diz na Bahia, “aonde” Neymar iria querer gastar as fichas da popularidade de sua cueca branca sendo recebido por Temer? “Aonde”, um suposto vitorioso Tite iria arriscar seu hoje já estratosférico cachê publicitário posando de dentes abertos ao lado do temeroso? Esses são tempos em que os brasileiros estão com vergonha e com medo de torcer. Vai que, nesse pântano, a seleção ganha. Vai que volta toda empoderada e vai que todos esses bichos políticos escrotos tentem tirar lasquinhas disso para um gozo nas urnas em outubro… Dá até medo.

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