A Violoncelista

Mesmo no caos existe espaço para a sensibilidade e a generosidade.
Em Roraima, uma jovem violoncelista venezuelana foi descoberta pelo comandante militar da região ensaiando no abrigo onde a instalaram. Ele se comoveu com que o som que ela criava, um oásis de beleza e delicadeza num ambiente hostil. Então, convidou-a para se apresentar junto à banda militar no Teatro Municipal de Boa Vista.

Houve pouco tempo para os ensaios, apenas dois dias. Mas a jovem se entendeu com o chefe da banda e, no dia marcado, com a presença da alta sociedade de Roraima, a musicista encantou os presentes tocando a Suíte para Violoncelo Número Seis de Bach. Bem, não posso afirmar que tenha sido a número seis. Afirmo que ela solou Bach e levou a plateia às lágrimas.
Imediatamente foi convidada pelo maestro da Sinfônica de Roraima para se incorporar à orquestra. Convite aceito, uma vida resolvida. Na próxima apresentação, com certeza, já não precisará da ajuda alheia para estar conveniente vestida para o concerto. Sim, a venezuelana que sola Bach chegou ao Brasil com a roupa do corpo e o violoncelo. Fugiu de seu país preocupada em salvar-se e à sua música. Para subir ao palco do Teatro Municipal de Boa Vista precisou que jovens brasileiras lhe emprestassem roupas e sapatos.
Conto isso por saber que, no momento, Roraima é um barril de pólvora. Se o governo federal continuar insistindo em distribuir apenas barras de cereais das Organizações Tabajara, sem tomar medidas concretas, o Estado não aguentará. Falta tudo: médicos, remédios, comida, lugar para morar, alimentos e até papel higiênico.
Em média, quinhentos venezuelanos cruzam a fronteira diariamente. Por mais que as autoridades estaduais e municipais se esforcem, é impossível alojar e alimentar essa multidão. Atualmente, todos sofrem em Roraima. Moradores e refugiados estão, ambos, à beira de um ataque de nervos. No dia em que o Estado explodir – e esse dia não está longe -, os roraimenses que, no início da invasão, fizeram tudo para bem receber os vizinhos, serão acusados de violentos e de xenófobos.
Custava ao presidente Temer elaborar uma política para rearranjar as pessoas desesperadas que se refugiam em Roraima? Nosso país é enorme, há terras sobrando em todo lado. Bastava um pouco de boa vontade e de organização do governo federal para aliviar Roraima e também os refugiados. Bastava alguém olhar para aquela multidão com os mesmos olhos sensíveis com que a violoncelista foi olhada. Bastava humanidade, sentimento que Brasília parece não conhecer.
Para piorar a situação, o sr. Maduro ameaçou cortar o fornecimento de luz a Roraima no início de setembro. O Estado é o único do Brasil que não faz parte do Sistema Interligado Nacional. Sua energia é fornecida pela usina venezuelana Guri ou gerada em termoelétricas dentro de nossas fronteiras. O motivo do corte é, segundo Sua Excrescência, uma dívida de 30 milhões de dólares.
Proponho usarmos mais as termoelétricas. Sim, a luz subirá de preço. Mas poderemos reaver o prejuízo apresentando ao ser abjeto que dirige a Venezuela uma conta por cada compatriota que ele envia para cá. Somando todas as nossas despesas, acho que Maduro passará de credor a devedor.
Vamos combinar que os governos dos dois países se merecem, lixam-se para as próprias populações.
Ainda bem que existe a arte e quem ainda se comova.
Ainda bem que existe a violoncelista.

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