A bicicleta

Não gosto de radicalismo. Nem de um lado, nem do outro. Acho burrice, fico irritada.
Nem se o ladrão da bicicleta tivesse a folha corrida do Jack, o estripador; nem se a bicicleta pretensamente não roubada fosse um exemplar único no mundo, confeccionada sob medida para o real lazer do príncipe William da Inglaterra; nem se o assalto fake – foi ou não foi assalto? Agora dizem tudo – tivesse acontecido sob a mira de armas, o tatuador poderia ter marcado a testa do rapaz. Aquilo foi um absurdo e uma covardia.

Já imaginou se neste país, onde nem o STF funciona – ou seja, estamos entregues às baratas –, cada um praticar a própria lei? Eu sou assaltada e decido cortar a orelha do ladrão para puni-lo. O outro acha que o melhor é raspar-lhe a cabeça. Um terceiro prefere matar de uma vez. Gente, vocês não estão vendo que assim é impossível? Que nós estamos caminhando para a barbárie? Que, um dia, alguém vai olhar para o seu filho ou o seu neto, acreditar que ele está mal intencionado e decepar-lhe as mãos? Até segunda ordem, ainda há lei neste país. Todos nós temos a obrigação de respeitá-la.
Por outro lado, não dá para entrar nesse mimimi nacional em torno do pobre jovem tatuado. OK, ele merece ter a testa limpa. Marcar uma pessoa para a vida inteira me lembra o obrigatório uso do sambenito durante a inquisição: constrangimento eterno. Mas também merece ser preso e punido. Entrar na casa de alguém, nem que seja para roubar um balde velho, enferrujado, furado e sem alça é crime. Está errado e não podemos aceitar.
A mãe do “dimenor” já alardeia que o filho é uma vítima da sociedade. Não é, não, minha senhora. Mais fácil ele ser vítima da senhora e de sua incapacidade de amar e de educar. Proponho que, sem tanto falatório tolo, a testa do rapaz seja limpa e ele encaminhado a um estabelecimento onde possa consertar a personalidade torta.
Sonho meu, sonho meu. Não existe no Brasil um bom lugar para ajudar a garotada perdida.
A verdade é que o Direito dos Manos vai lhe dar uma bicicleta nova para ele poder sair às ruas e livre, leve e solto, assaltar com mais facilidade.
Nosso país precisa ser repensado urgentemente.

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