Comprando um Vinho – Mitos


Na coluna anterior discutimos se estilo e conteúdo de um rótulo ajudam a vender um vinho. Existem alguns estúdios de design que se dedicam a estudar estes aspectos do mundo do vinho e são frequentemente contratados, pelas grandes empresas, para melhorar a visibilidade de seus produtos.
Não chega a ser uma arte, mas não há como negar que usar o apelo visual para conquistar consumidores tem um peso considerável na decisão final.
Mas só isto, não é suficiente.
Há outras facetas deste comércio que são chamadas de ‘mitos’, por alguns autores, e sobre os quais vamos comentar.
1° mito: Vinho mais caro é melhor.
Nem sempre.
Para compreender estas razões, devemos levar em conta até mesmo o país onde o vinho está sendo adquirido.
No Brasil, por exemplo, há várias distorções nos sistemas de importação que podem impor uma sobretaxa a um vinho, simples, oriundo de um país com o qual não temos fortes acordos comerciais. Isto vai majorar o seu preço final que acaba ficando irreal e muitas vezes maior que o de um ícone sul americano.
Está é apenas uma das muitas possibilidades. Vinhos de 1ª linha sempre serão caros, seja no local de origem, seja em qualquer outra região que o importou.
Cabe ao comprador ter certeza sobre o que está comprando. Fraudadores existem em qualquer lugar e se aproveitam das nossas fraquezas. Tem muita gente vendendo gato por lebre…
Uma coisa é pagar alguns mil dólares por um Romanèe-Conti, autêntico. Outra seria pagar o mesmo valor pelo nosso desconhecido Domaine O Boletim, cujo rótulo criei para a coluna anterior.
Outra distorção, corrente no nosso mercado, é o preço dos vinhos nacionais, sempre mais caros que de seus concorrentes chilenos, argentinos e uruguaios.
Seríamos, realmente, melhores?
Por último, não se deixem enganar pela velha técnica de majorar o preço de um vinho, sem nenhuma expressão, apenas para impressionar o comprador desavisado.
2º mito – Vinhos de parcela ou vinhedo únicos são melhores.
Existem, mas são alguns dos vinhos mais exclusivos do planeta. O já citado Romanèe-Conti é um deles. O Gaja Sori San Lorenzo, um espetacular barbaresco, é outro. Na vizinha Argentina temos os sempre desejados Achaval Ferrer e suas três fincas: Altamira, Bella Vista e Mirador. Há muitos outros.
O complicado é encontrar um vinho de preço palatável, na prateleira de um supermercado, ostentando um garboso ‘Single Vineyard’ ou ‘Parcela Única’, e acreditar nisto.
Não é segredo para ninguém que a qualidade de um vinho está diretamente ligada – mas não unicamente – ao que seja chama de rendimento do vinhedo. Em termos simples, devemos responder à seguinte pergunta: quantos quilos de uva necessito para fazer uma determinada quantidade de vinho?
Nem precisamos fazer contas para perceber que quanto mais uva usarmos, menor será o rendimento e obteremos um vinho melhor. A recíproca é verdadeira.
Apelar para dizeres como ‘vinhedo único’ como força de venda é exagerar um pouco. Fico imaginado a dimensão destes vinhedos, ditos ‘únicos’…
Tenham sempre em mente que o vinho é produzido a partir de uma fruta sazonal. Como sabemos, a cada ano, ou safra, a matéria prima será diferente. A principal tarefa de um Enólogo é conseguir manter uma certa homogeneidade ano a ano. O melhor recurso que tem é o de poder misturar uma mesma casta, obtida em diferentes locais, corrigindo as variações naturais de cada lote de fruta. Pode até mesmo comprar de terceiros, caso seja necessário acrescentar alguma característica que, naquele ano, não apareceu em seus próprios vinhedos.
Vinhos de parcela única?
Mais mito que verdade. O preço maior nem sempre é justificado.
3º mito – Grandes vinícolas não produzem grandes vinhos
Difícil explicar este mito.
Já foi verdade, em eras passadas. Nas grandes vinícolas o maior esforço era feito para produzir um único vinho, em grande quantidade, absorvendo totalmente os recursos disponíveis, fossem de matéria prima, equipamentos ou mão de obra. Tudo em busca de pagar as contas e ter algum lucro, o que nem sempre era possível.
Pequenas produções de grandes vinhos eram exclusivas para os Chateaux bordaleses ou os Domaines da Borgonha, entre outros.
Mas o mercado do vinho mudou muito. Virou um business, um investimento e as grandes corporações entraram de cabeça neste negócio, que não é restrito aos vinhos, mas englobam quase todos os tipos de bebidas alcoólicas, como um todo.
Grandes vinícolas absorveram as menores e acabaram, por sua vez, por pertencer a fundos internacionais, tudo sob grandes guarda-chuvas financeiros.
Vou citar um destes muitos conglomerados e as “marcas” que administram: Louis Vuitton Moët Hennesy – LVMH, talvez o maior nome em artigos de luxo deste planeta.
Atuam nos segmentos de moda, artigos de couro, joalheria, relógios, perfumes, cosméticos, lojas e mercados além de outras atividades que incluem até mesmo uma sofisticada rádio.
Vinhos e destilados deram origem a este grupo. Pertencem a eles as seguintes marcas e produtos:
Ardbeg (Whisky); Belvedere (Vodka); Bodega Numanthia; Cape Mentelle; Chandon; Château Cheval Blanc (um dos melhores vinhos do mundo); Château d’Yquem (o vinho doce mais famoso e de minúscula produção); Cheval des Andes; Clos des Lambrays; Clos19; Cloudy Bay (ícone neozelandês); Dom Pérignon; Glenmorangie (Whisky); Hennessy; Krug Mercier; Moët & Chandon; Newton Vineyard; Ruinart; Terrazas de los Andes; Veuve Clicquot…
Precisa dizer mais?
4º mito – Vinhos Reserva ou Reservado seriam os melhores
Já abordamos este mito nesta matéria aqui: http://oboletimdovinho.com.br/2011/06/04/a-proposito/
Esta técnica de inventar uma classificação, que nunca existiu, é tão antiga quanto a sempre citada Sé de Braga. Mas tem muito comprador que ainda se deixa levar pelas famosas letrinhas que compõem, num rótulo, a palavra ‘Reserva’.
Não há quem não se impressione, afinal, deveria ser um vinho especial, uma parcela guardada pelo proprietário para ocasiões especiais!
Lamento, mas não é nada disto. É jogada de marketing mesmo. No nosso mercado ainda aparece uma outra excrescência, os tais ‘Reservado’, ao que eu acrescento, ‘para os otários’.
Não caiam nesta.
Dois países apenas, têm uma legislação ou norma enquadrando estas classificações. Eis a lista:
– Espanha: vinhos “Reserva” passam 3 anos amadurecendo sendo, pelo menos, 6 meses em barris de carvalho;
– Itália: os “Riserva” devem amadurecer 2 anos, no mínimo, para poderem colocar esta designação no rótulo. Em alguns casos este período pode chegar a 5 anos (Barolo).
Ninguém mais!
Para os leitores terem uma perfeita dimensão do que estamos falando, imaginem que, nos EUA, a palavra ‘Reserve’ foi registrada como uma marca!
In vino veritas.
Saúde e comprem bons vinhos, sem sustos.
Vinho da Semana: um ‘Riserva’ caprichado
Rubesto Montepulciano d’Abruzzo Riserva 2012 – $$
Mostra complexidade, com aromas de cereja preta, violeta e baunilha. No paladar, é intenso, estruturado e harmônico.
Harmonização: Cordeiro, Caças, Carne de vitela assada, Queijos curados.
Compre aqui: www.vinhosite.com.br

 
 
 
 

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