Tricondenado, triculpado, tricorrupto

Os grandes jornais realçam o que é menos importante na decisão do STJ sobre Lula.

Os sites dos três grandes jornais brasileiros davam manchetes bem parecidas, por volta da 21h30 da terça-feira, dia 23 de abril. Exatamente como o site da maior revista semanal.
Sempre gostei de prestar atenção a esse tipo de coisa. O tal do jornalismo comparado, uma das matérias mais importantes, creio, dos currículos dos cursos de jornalismo.
“STJ reduz pena de Lula de 12 anos e 1 mês para 8 anos e 10 meses no caso do triplex”, manchetava o Estadão.
O Globo: “Por unanimidade, STJ reduz pena de Lula no caso do tríplex; ex-presidente poderá deixar prisão em setembro”.
A Folha de S. Paulo: “STJ reduz pena, e Lula pode sair da cadeia ainda neste ano”.
A revista Veja: `Por unanimidade, STJ reduz pena e Lula pode ir para semiaberto em setembro.”
(Mais tarde, O Globo mudou a manchete. E, nas edições impressas, tanto O Globo quanto o Estadão – felizmente – mudaram a forma de noticiar a decisão do STJ. Falo das mudanças no P.S. ao final do texto. )
***
Nas faculdades de jornalismo (passei por três, não tive paciência de concluir nenhuma), aprendi pouquíssima coisa, mas na prática, nas redações, ao longo de 37 anos, aprendi, entre muitas, muitas lições, a de que um título com o verbo “poder” ou o advérbio “quase” é necessariamente fraco. Qualquer um.
“Lula pode sair da cadeia ainda este ano.” “Pode ir para semiaberto em setembro”.  “Poderá deixar prisão em setembro.”
Pode. Pode também morrer. Pode receber o Nobel da Paz e o cargo de secretário-geral da ONU, no mesmo dia. Pode ser resgatado da prisão por um grupo de anjos e arcanjos, e levado diretamente ao céu, para se sentar à direita de Deus Pai.
Assim como pode permanecer preso do jeitinho que está. Pode nesse meio tempo, até setembro, ser condenado no caso do sítio e continuar mofando na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba per secula seculorum.
Pode tudo. Pode absolutamente tudo.
Foi quase pênalti? Quase começou a Terceira Guerra Mundial?
Isso também não é título que preste. Se foi quase, não aconteceu. Se não aconteceu, então o redator tem que procurar outro título.
Estadão, Folha, O Globo, Veja, todos erraram no título sobre o julgamento de mais um pedido da defesa de Lula, desta vez no STJ, o Superior Tribunal de Justiça.
O Jornal das 10 da GloboNews deu a manchete certa: “O Superior Tribunal de Justiça mantém a condenação do ex-presidente. Mas reduziu a pena…”
A notícia, a novidade, o ponto central, fulcral do julgamento desta terça-feira foi que o STJ – por unanimidade! sim, por unanimidade! – manteve a condenação do presidente, que já havia sido decidida na primeira instância, em Curitiba, e na segunda instância, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, m Porto Alegre.
Pela terceira vez, na terceira instância, em tribunal superior, Lula foi condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá.
O lulo-petismo há meses insiste na tese de que Lula é preso político, é condenado sem provas, que a Lava-Jato fez uma sentença política, que o juiz Sérgio Moro é agente da C.I.A., essas besteiras todas.
A sentença de hoje veio lançar a pá de cal nessas imbecilidades.
Lula cometeu os crimes de corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá. Faltam ainda os julgamentos de vários outros processos, mas no primeiro deles ele já foi condenado uma, duas, três vezes.
Uni, duni, trê. Três vezes é de vez.
Tricondenado. Triculpado. Tricorrupto.
Essa é a notícia.
O resto é o olhinho, como se diz no jargão das redações – é a linha fina que vem embaixo do texto, com o segundo aspecto mais importante do caso. “O STJ mantém a condenação. Mas reduz a pena…”. Com a decisão secundária de redução da pena, e se todos os santos ajudarem o PT, se ninguém atrapalhar, se vier a acontecer que Lula seja inocentado nos próximos vários processos, pode ser, quem sabe, que a partir de setembro ele vá para o regime semiaberto.
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Ascânio Seleme publicou a coisa certa no site de O Globo – jornal que ele dirigiu, com talento, por muitos anos – já às 18h42 desta terça-feira, 23/4.
O título era “Condenação de Lula confirmada no STJ”.
Eis o texto dele:
“Lula foi condenado na terceira instância da Justiça brasileira. Os petistas que comemoram a redução da pena do ex-presidente deveriam considerar o resultado do julgamento do STJ como uma derrota, nunca como uma vitória eventual, em razão de ele estar agora mais perto de uma prisão em regime semiaberto. Com este resultado, Lula foi considerado culpado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do Triplex do Guarujá.
No ano passado, a esta altura, o PT insistia na inocência de Lula, considerava que o seu julgamento e condenação em duas instâncias tinham natureza política e buscava reparação em foros internacionais. Recursos foram impetrados até mesmo na  ONU.
A redução da pena do ex-presidente ocorreu em tamanho quase inversamente proporcional ao aumento dado a ela pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em janeiro do ano passado. Aumento ou redução da pena de prisão diz muito, mas não diz tudo. Embora o resultado de hoje seja muito importante para as pretensões de liberdade do condenado, o fato é que os crimes apontados pelo Ministério Público foram de fato cometidos, na visão agora da terceira instância.
Os advogados e o partido do ex-presidente querem agora anular todo o processo por entenderem que o resultado do julgamento no STJ mostra que a pena original foi exagerada. Assim, o PT aparentemente aceita que houve o crime, mas considera que sua punição foi muito além do normal. O PT avisa que vai ao STF buscar esta reparação. É justo, Lula ainda não foi condenado na quarta e última instância.”
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Os lulo-petistas provavelmente não perceberão, mas há nesta frase com que Ascãnio Seleme conclui seu comentário uma certa dose de ironia.
23/4/2019
P.S.: O site de O Globo alterou a manchete. Às 23h10, a manchete do site era a que me parece a correta: “Por unanimidade, STJ mantém condenação de Lula no caso do tríplex, mas reduz a pena”.
E as edições impressas de O Globo e O Estado também destacaram a informação mais importante. Os dois jornais deram exatamente a mesma manchete, palavra por palavra: “STJ mantém condenação de Lula, mas reduz a pena.
O que é uma excelente notícia. Ainda bem. Ponto para eles – e para o bom jornalismo!

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