O anti-lavajatismo é pró-Moro

No papel de vítima dos poderosos, ele pode puxar os anti-Lula e os bolsonaristas arrependidos.

São no mínimo apressadas as análises de que Sérgio Moro é o maior derrotado no julgamento da 2ª Turma do STF que liberou para a defesa do ex-presidente Lula o acesso a mensagens, obtidas por hackers, que teriam sido trocadas entre o ex-juiz e os promotores da Lava-Jato de Curitiba. Não é descartável – e é até bastante provável – a hipótese de que a percepção popular seja a de que há um esforço combinado para enterrar investigações e punições que há anos tiram o sono de boa parte da República. Até porque existe mesmo. E é aí que Moro pode dar a volta por cima.

Política está longe de ser cartesiana, mas a conta até aqui não desabilita Moro. Ao contrário.

Lula e o PT continuam simbolizando a corrupção, algo mensurável na rejeição que o partido e o seu líder têm. Bolsonaro, cuja avaliação ruim/péssima está na casa de 40%, abriu a guarda de vez para as peripécias do Centrão que ele tão bem conhece, grupo useiro em abusar e se lambuzar com o dinheiro público. Não terá, portanto, a bandeira anticorrupção que tanto o impulsionou em 2018. Bom para Moro, que pode até ter cometido erros em série – e cometeu vários -, mas continua encarnando a figura do paladino no combate à corrupção.

Mesmo antes de escancarar o governo para o Centrão, Bolsonaro já tinha deixado claro seu desapreço por mecanismos de fiscalização e controle, em especial quando eles se aproximam de sua prole. Detonou o Coaf, interferiu na Polícia Federal, colocou gente no lugar certo para desmontar instrumentos de proteção do Estado. Vira e mexe ele diz que não há corrupção em seu governo, renegando seu filho Flávio, esquecendo-se dos laranjas e dos toma lá, dá cá, sempre caríssimos para o pagador de impostos.

Moro tropeçou, caiu, esborrachou. Abdicou da aura de intocável para ser pau mandado do tosco e direitista radical Jair Bolsonaro, que venceu as eleições capturando o sentimento anti-PT, anticorrupção e a favor da Lava-Jato. Ungido super-ministro, deu materialidade a promessas que, como tantas outras, Bolsonaro jamais considerou cumprir.

Demorou mais de um ano para romper com o presidente que, já no primeiro mês, demonstrou que não daria a carta branca assegurada. Perdeu moral e terreno. Entrou no governo como um leão, saiu urrando, e foi virando gatinho.

Para sorte da bandidagem e azar do país, a Lava-Jato entrou na rota de tiro.

Nos últimos meses, foi golpeada de todos os lados. O procurador-geral Augusto Aras, homem de Bolsonaro, tratou de encerrar a operação de Curitiba e marcar o enterro também no Rio. No Congresso, fala-se em derrotar a prisão após condenação em segunda instância, esquecer o fim do foro privilegiado para políticos e, por mais arrepios que possa causar, reduzir penas para delitos de improbidade. Na Suprema Corte, também há indícios de que Lula sairá vitorioso.

Ainda que à primeira vista pareça um bofetão nas pretensões sabidas e não admitidas para 2022, Moro pode tirar proveito dessa e de todas as outras bordoadas contra a mais exitosa operação contra a corrupção a que este país já assistiu. No papel de vítima dos poderosos e da velha política, pode puxar para si os anti-Lula e os bolsonaristas arrependidos. Goste-se ou não dele, Moro vai dar trabalho.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 10/2/2021.

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