Ambiente turvo

Bolsonaro na ONU
Um ativista da mudança climática segura uma placa com a inscrição “Bolsonaro, a Colômbia diz NÃO à queima da Amazônia”,
um protesto em frente ao consulado brasileiro em Cali, Colômbia (Luis Robayo/AFP)

A Cúpula do Clima das Nações Unidas que começa amanhã e a 74ª Assembleia Geral a ser aberta pelo presidente Jair Bolsonaro, dia 24, acontecem no rastro da maior manifestação global da História, que, na sexta-feira, reuniu bilhares – jovens, na maioria – nas ruas de mais de 150 países, incluindo o Brasil. Vozes pela salvação de um planeta afundado na mistura perversa da ganância capitalista e do populismo criminoso de governantes que negam o pensamento científico e a própria ciência, criam rédeas comportamentais, cerceiam liberdades e arrastam o mundo para trás. Entre eles, o mandatário do Brasil.
A mega manifestação mundial – cujo embrião foi gerado no ativismo da sueca Greta Thunberg, de apenas 16 anos, que desafiou o Parlamento de seu país e iniciou as “Fridays for Future”— bateu todos os recordes, reunindo gente de todos os cantos. De Nova York a Berlim, de San Francisco a São Paulo, do Rio de Janeiro a Sydney, de Santiago a Dublin, de Joanesburgo a Paris, de Recife e Maceió a Londres. E em tantos outros.
Um recado retumbante, impossível de ser desconsiderado pelos governantes reunidos na Assembleia da ONU.
Ainda que algumas das manifestações no Brasil tenham sido de menor porte do que as mais de 100 realizadas nos Estados Unidos e das milhares em países da Europa, África e Oceania,
Bolsonaro deveria levar em conta o vigor delas. E se atinar para a encrenca que o meio ambiente já criou e ainda pode criar para o seu governo. Dentro e fora do país.
Na live semanal de quinta-feira, ele antecipou a linha do discurso que fará na terça-feira. Assegurou a pretensão de adotar um tom conciliatório – ou seja, sem insultos a presidentes e primeiras-damas de outros países. Pesará na defesa da soberania nacional – que em momento algum esteve ameaçada – e vai insistir no conto de que as queimadas na Amazônia brasileira não aumentaram. Seriam resultado da prática anual de cultivo de fazendeiros e até dos índios. Algumas poucas, criminosas.
Para dourar essa narrativa, Bolsonaro incluiu a índia Ysani Kalapalo na comitiva de Nova York. Trata-se de uma militante declarada desde a campanha, com contas no Instagram e Facebook, redes em que postou a explicação de que as chamas na Amazônia eram provocadas pelos índios para o plantio da mandioca. O filhote e vereador licenciado Carlos reproduziu o post da aliada. Algo de fazer inveja à ex Dilma Rousseff, uma apologista do tubérculo.
O discurso da falsa ameaça à soberania e o apelo à índia talvez garantam algum sucesso ao presidente nas redes tropicais. Mas dificilmente fora delas.
Menos ainda diante dos líderes mundiais que têm em mãos dados objetivos expedidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) dando conta de que as queimadas e o desmatamento acelerado na Amazônia aumentaram 222% em agosto deste ano se comparados ao mesmo período em 2018.
Bolsonaro, claro, desconfia dos números oficiais de um órgão de Estado, que, quando revelam resultados desagradáveis, são tidos por ele como aparelhados pelos demônios comunistas. Foi assim com o próprio Inpe, com o Ibama e o IBGE.
Como dita a tradição, o presidente do Brasil vai abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. Desta vez depois da mais vigorosa manifestação mundial contra a destruição cotidiana do planeta. Bolsonaro, que já afirmou que para reduzir a poluição bastava “fazer cocô” em dias alternados, terá de se conter.
Palavras vazias, xingamentos ou leviandades, que tanto excitam seus fiéis nas redes sociais, não cabem no ambiente da ONU. Muito menos “verdades” inventadas, que não resistem a uma simples pesquisa no Google.
Para ser levado a sério ele precisará de muito mais do que uma índia adornada a tiracolo.
Fonte: Blog do Noblat

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