6 de julho de 2022
Ligia Cruz

Tribunal da vergonha


Teatro armado na arena mais ilustre do país. Latim pra lá, francês pra cá, excelência aqui, eminência acolá. Ainda bem que ninguém ali falava grego, senão a língua portuguesa seria apequenada a poucos verbetes.  Nunca se viu um tribunal superior tão inferior e tantos especialistas em habeas corpus para garantir a liberdade de um réu, como na última sessão de 22 de março à tarde, no Supremo Tribunal Federal.
O corpo jurídico da mais alta corte do país se envergou numa atitude de submissão e falta de lisura perante a nação. Todos bisonhos garotos de recados do ex-presidente Lula.  Eles rasgaram o verbo diante num dia, para no outro se abraçarem numa cena teatral comovente. Todos juntinhos livrando o chefe da crucificação física e moral – o mais ingênuo e humilde servo de Deus. Foi um tragicômico espetáculo para impedir a emissão da prisão do chefe, a qualquer momento, pelos juízes de segunda instância, como definido pelo próprio órgão em 2016.  Fazem e desfazem sem nenhum pejo e consequência. Mas ela virá.
Para que assistir novelas se os próprios membros da suprema corte do país promovem episódios picantes gratuitos enquanto se cutucam. Do alto de seu posto, Carminha, a atual comandante da casa, não economizou risinhos indisfarçáveis pela exitosa produção do episódio. Não se fez respeitar e se encaixou no papel de coadjuvante, diante dos barbados, fazendo o tipo de “mártir pressionada”.
Além de escancararem a relação promíscua que mantêm com o réu, os juízes do supremo rasgaram o código penal e, de quebra, defecaram (com perdão da analogia) em todos os agentes públicos e servidores da justiça que atuaram até então no combate à corrupção. Vale para todos, menos para rei, o que lhes deu cargo e benesses.
Também não causa espécie a eles a grande soma de dinheiro investida até então para manter a milionária banca de defesa do ex-presidente, que conta até com ex-ministro do supremo, pago a preço de ouro. Certamente uma merreca diante do que amealhou em todas as falcatruas em que está envolvido, somando o que deu aos compadres e seus escalões. Tudo leva a crer que esse empenho da cúpula do STF também não é pouco, montante pago até o último centavo pelos cofres públicos.  Mas não é tudo.
Esses servidores públicos, que usam capa de Batman, humilharam as outras instâncias que atuam nos casos de corrupção e precisamente no que diz respeito aos processos em que Lula é réu. Para que servem os tribunais regionais mesmo?  Para nada. Vão continuar tocando os seus processos sabendo que o trabalho de meses a fio pode ser ridicularizado em um jogo de interpretação e retórica.
Mesmo parecendo uma orquestra desafinada, na prática há um ensaio final há muito combinado. Lula tem que se safar. Assim como Ricardo Lewandowski fragmentou o rito do impedimento da amiga de partido no congresso, Dilma Rousseff, para que não se tornasse inelegível, agora os ministros do supremo farão muito mais pelo patrão.
A prisão de Lula não é uma vingança da direita, é um trâmite legal com evidências de crimes comprovados pelo Ministério Público contra a nação, não só quando esteve à frente da presidência, mas pelo que tem feito até o momento para se livrar da justiça. Ele continua dando nó em pingo de éter, só que não é mais o queridão. Até os últimos recursos o povo vai sangrar, na base da degola, bem ao estilo francês “chiquetê” da suprema corte. Só falta mesmo a peruca branca crespa que se vê em alguns tribunais.  Destino irremediavelmente triste o de Lula. Vale aqui o dito popular: “é tão pobre, mas tão pobre que só tem dinheiro”.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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