28 de maio de 2022
Ligia Cruz

Só a Globo não percebeu…


William Bonner encarou numa boa o papel de mocinho da Globo, aquele que salva a donzela da boca do dragão. No “boa noite” do último JN de 2018 ele confessou as dificuldades de exercer o jornalismo neste último ano. Não foi fácil tourear políticos não adestrados. O gigantesco esforço da emissora de defender com unhas e dentes o seu presidenciável fez muito estrago no casco. A global é hoje um navio desgovernado.
A aposta de menosprezar novos atores do cenário político nacional fez a emissora sangrar. Roberto Marinho, o fundador, foi até defenestrado por ter apoiado o regime militar no seu tempo. Talvez não por convicção, mas porque daí surgiram as polpudas verbas que regaram seus cofres por décadas e sustentaram seu milionário elenco.
Os herdeiros Marinho fizeram diferente: se amalgamaram com a esquerda corrupta que chegou ao poder, sem antever um futuro improvável. A falta de visão faz mal aos negócios. Deu no que deu. Manter-se isenta, como a imprensa deve ser, teria sido uma escolha muito melhor.
Bolsonaro não foi tratado como um possível presidente em nenhum momento nas últimas eleições. No caminho inverso, investiu na dramática encenação de abril que levou Lula à prisão, como se fosse uma de suas novelas. Já Bolsonaro foi hostilizado e destratado por vários jornalistas da emissora, como se não fosse um direito seu candidatar-se.
Nem uma cobertura digna no caso do atentado sofrido ele recebeu. Um crime menor, fingimento. A falta de destaque na mídia da casa só fez piorar tudo para a emissora, acostumada às benesses do governo federal. O capitão ganhou sem campanha no segundo turno, sem tempo de TV, apenas com apoio popular.
No dia da posse pode-se ver um Bonner acabrunhado, bancando o repórter esquecido há tempos na bancada do estúdio, sem a costumeira arrogância sisuda. Apenas tentou remendar a ópera e salvar a pátria. Não vai chover na horta como de costume. O discurso bonitinho do bom jornalismo não convenceu.
O mito, o coiso, a aberração do demo roubou a cena com sua simplicidade genuína e fará morada no Alvorada.
O militares que integram o staff do novo presidente também são muito diferentes dos de 1964. Só a Globo não percebeu. Nenhum mocinho vai salvá-la dos tempos difíceis que o grande público e muitas empresas que fecharam as portas nos últimos anos conhecem bem. Agora é lavar o convés do navio com escova de dentes, rezar e ensaiar o que desaprendeu.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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