18 de abril de 2024
Colunistas Ligia Cruz

A escravidão não acabou

Algumas histórias não têm fim. São caladas pelo tempo para não incomodar aqueles poucos que exercitam sua sordidez na fragilidade do outro.

Sempre foi assim, mas muito pior em certos momentos. Nas guerras da antiguidade, os homens eram mortos e mulheres estupradas e sequestradas de suas aldeias como espólio dos invasores e seguiam para outras vidas, para parir filhos de inimigos. Isso aconteceu em todos os impérios conhecidos. Todos. E acontece ainda hoje.

A tática não mudou muito ao longo do tempo. Submeter pela força bruta sem chance de defesa e escravizar. Essas práticas são usadas para humilhar oponentes, subtraindo suas mulheres e filhos.

Em exemplos mais graves, a intenção é não deixar sobreviventes, nem os que ainda estão na barriga são poupados. São decepados com os ventres maternos e as mamas que iriam alimentá-los. Isso aconteceu no Sudão e na Nigéria de nossos dias, na África. E as vítimas, não há quem grite por elas. É uma tentativa de extermínio étnico a mais. Os que sobram seguem a sina como sobreviventes de chacinas e seus horrores.

Os estupros têm sido denunciados ainda hoje na guerra entre Rússia e Ucrânia e também no recente ataque terrorista do Hamas em Israel. Neste último episódio, nem mesmo crianças foram poupadas. Ódio bestial.

São tantos fatos como esses reportados na história que seriam necessários compêndios para enumerar as barbáries.

Engana-se quem crê que somente negros foram escravizados de modo cruel. Bem antes disso, ao longo dos milênios a prática de submissão pela humilhação, medo e tortura fizeram povos cativos.

No Egito antigo, por exemplo, quem não professava a fé politeísta era candidato natural ao trabalho escravo. Apenas uma motivação para subjugar e ter à disposição os construtores de suas obras monumentais. A Bíblia tem os registros da escravidão dos judeus. Foi uma epopeia fugir de lá. A saga toda, as pragas, a intervenção divina são contadas com detalhes, sejam frutos da imaginação ou da verdade. Mas não só eles. Quem pertencia a outros reinos do entorno também passou pela mesma provação.

Na Suméria, uma das primeiras civilizações humanas, anterior a 6 mil anos, há relatos sobre essa prática em escrita cuneiforme, no próprio Código de Hamurabi, o primeiro exemplar de leis da antiguidade remota.

Na Grécia antiga e no Império Romano o mesmo sucedeu com quem não pertencia à famílias proeminentes. Aqueles pertencentes à tribos subjugadas ou vencidas em batalhas eram escravizados. Os próprios gladiadores, tão admirados pela força e táticas de lutas, eram escravos. Os seguidores do cristianismo também.

Após a queda do Império Romano do Ocidente, onde valia tudo para expandir territórios e vencer quem estivesse pelo caminho, houve um ajuste nos planos de conduta de dominação.

Aquelas mulheres, mães e esposas de imperadores, generais e senadores, descritas como fornicadoras e manipuladoras impiedosas, que gestaram psicopatas e covardes, entraram para a história com tintas a mais. Mas eram apenas traços de uma população cuja maioria era gente do povo com vidas comuns.

Historiadores fizeram questão de pinçá-las, para dar-lhes relevos questionáveis e picantes, ao invés das modorrentas mulheres dos gentios. Não valia lembrá-las por isso, nem a seus maridos.

Com o império romano enfraquecido pelos próprios embates internos e as crescentes e sucessivas invasões bárbaras e de tribos germânicas, em 476 D.C, uma nova realidade passou a ser desenhada. O mapa como o conhecemos mudaria outras centenas de vezes desde então.

Com o imperador Constantino, no século IV, começou a tolerância religiosa, que culminou com a sua conversão ao cristianismo. Surgia assim um novo poder para preencher as lacunas entre as batalhas, vitórias e derrotas e colocar um ingrediente a mais no caldeirão das contendas: a fé religiosa. Neste capítulo, as mulheres foram a sustentação e ainda são.

Enquanto expandia seus tentáculos pela Europa e inaugurava o poder pela influência, a Igreja esteve por trás de todos os eventos históricos desde então. E a mulher tornou-se a garantidora de que as famílias seriam pouco a pouco convertidas, mesmo com sua pouca relevância social, longe das esferas de poder.

A continuidade do Império Romano do Ocidente passou por mudanças no século VIII quando o papa Leão III concedeu a ascensão do franco Carlos Magno ao trono do que sobrou do império naquela parte da Europa, criando a dinastia carolíngia, que permaneceu no poder, até 899. A versão do império romano com outras identidades.

Antes do enfraquecimento e queda dos francos houve esforços para incentivar a formação de um império multiétnico, para integrar todas as tribos germânicas e os estados que integraram a Roma clássica. Assim foi criado o Sacro Império Romano Germânico, que mudaria a cara da Europa, gerando as monarquias dinásticas. Quem solapou essa estrutura, séculos depois, foi Napoleão e o fim se deu com o assassinato do herdeiro do trono Habsburgo, Francisco Ferdinand, na véspera da I Grande Guerra.

No pano de fundo de todos esses episódios, aquelas que deram vida a todos esses personagens e sabe-se lá, até que ponto moldaram muito do caráter deles. As mulheres sempre foram moeda de troca, desde que nasciam.

Ceifadas das estruturas sociais de poder, não dá para crer que as mulheres, já calejadas por guerras milenares, permaneceram à margem das decisões, embora não batessem o martelo em questões decisórias. Mas influenciavam sim e manipulavam, até mesmo quando levavam a pior. Pois se resignavam com os papéis destinados a elas.

Na Idade Média, a paz e a sucessão das coroas monárquicas, em entrelaçamento com o Sacro Império Romano Germânico e a Igreja, se dava com casamentos, onde a função das mulheres era tornar-se a parideira de sucessores aos tronos das monarquias.

Meninas eram dadas em casamentos a tios, quase avôs, em seções de estupros consensuais de seus pais, para celebrar as alianças. Outra versão de escravagismo e barganhas por interesses.

Só Deus sabe o quanto, entre as paredes frias dos castelos e palácios europeus, se chorou. Casamentos por amor era coisa que não se contava nem em livros. A escravidão nesse tempo era a de costumes e a renúncia a uma vida de sonhos entre amantes era comum.

Embora solapado nas bases com a queda de Constantinopla para os otomanos, sede do império romano do oriente, em 1453, a elite europeia da época se fechou em suas fronteiras para impedir o avanço dos turcos e, mais que isso, a imposição do islamismo como fé. Muitos foram escravizados nesta marcha para dentro da Europa.

A própria Idade Média viveu horrores com perseguição a judeus, árabes e ciganos, a menos que se convertessem ao catolicismo. A tortura foi o método de submissão. Por mais insano que possa parecer, foi uma rainha católica que financiou as atrocidades da inquisição, Isabel II, da Espanha.

Passados esses períodos sombrios que a Igreja Católica faz questão de fingir que não é com ela. Como também se calou quando holandeses, portugueses, espanhóis, franceses, britânicos, árabes e os próprios africanos ocidentais venderam escravos negros, num comércio sistemático jamais visto naqueles tempos. Hoje é muito pior.

Mais tarde, voltaram com mais alguns para dividir entre si os países, suas riquezas, destruir culturas e escravizar pela fome. Isso ocorreu no fim do século XIX.

Ainda hoje o escravagismo é prática corrente na Ásia, África e mesmo nos países ocidentais, onde a mão de obra escrava existe em todos os países e onde mulheres e crianças também são as maiores vítimas do tráfico humano.

Em 2013, essa conta chegou a 40 milhões de pessoas, a maioria na Ásia. Na Mauritânia, 20% da sua população, em torno de 600 mil pessoas são escravas.

A Índia é a número 1 nesse quesito, com 8 milhões de escravos, seguida de Rússia e China. Barbárie de todo tipo é praticada neste exato momento enquanto o mundo silencia.

O mal começa e continua no homem. Em sua arrogância, prepotência e falta de compaixão.

A história humana é feita disso, para a profunda tristeza dos bons. E segue assim.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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