7 de julho de 2022
Ligia Cruz

Perdeu malandro!


Acordei meio do avesso, amassada, cizuda e já me preparava para mais uma enxaqueca quando o telefone tocou. Nem deu tempo para pensar na dor. Fui vítima de uma tentativa de golpe que só não se concretizou porque meu anjo da guarda é mais bravo do que eu.
A orquestração da bandidagem é tanta que é quase impossível não cair. Qualquer um pode! Eles envolvem banco, empresa de cartão e telefonia num pacote só. Te ligam dizendo que é da área de segurança do banco e avisam que seu cartão está sendo usado em compras em outra cidade. Se não fomos nós, temos que entrar em contato com a empresa de cartão imediatamente.
O que você faz? Desliga e já vai procurar o telefone, com uma gastura danada subindo pelo esôfago. Nem deu tempo, outra ligação da mesma pessoa, um rapaz aflito dizendo que foram gastos mais oitocentos reais. A essa altura perto de três mil. O afogadilho é para não te dar tempo de pensar e garantir que você vai ligar logo enquanto mantêm sua linha presa.
Quando você digita o número da operadora de cartão, em qualquer um dos telefones, são sempre os mesmos que atendem. Me confesso incapaz de entender como esses crápulas fazem isso. O efeito surpresa, a incredulidade e a criminalidade, a que estamos submetidos diariamente, nos fazem sentir derrotados diante de algo assim.
Só que eles não contavam com uma situação muito peculiar no meu caso: eu tenho surdez unilateral, o que faz com que meu ouvido 100% seja mais sensível e capte determinadas frequências, timbres e detalhes de sons que para muitas pessoas normais passam desapercebidos. Difícil traduzir em palavras. É a natureza que se supera.
Desconfiada, fiz a primeira ligação para a empresa de cartão e percebi um eco sutil no ambiente, uma apreensão, um silêncio sepulcral que nenhuma central de atendimento tem, mesmo com os filtros. Uma voz feminina formal, mas sem boa tarde e sem citar nome, atendeu dizendo o nome do banco.
Mas eu liguei para a central do cartão, não no banco!! Não teve o procedimento de digitar o cartão, que é feito eletronicamente. Foi a seco. Estranhei e desliguei, fui para o próximo número.
Quem atendeu foi o rapaz que me ligou da primeira vez avisando das compras que estavam sendo feitas. A voz já estava no meu registro e eu já estava absorvendo a trama. Só que meu cartão estava comigo, eu não disse que o perdi. Mais safo, ele disse “boa tarde em que posso ajudar?”. Eu ri e disse: interessante, nessa central todos tem a mesma voz! “Não entendi senhora!”.
Mas eu sim malandro, perdeu! Liguei no outro número e atendeu a mulher de novo; foi só pra checar. Testei com uma ligação desta vez para a Net e os mesmos caras de pau atenderam.
Eu disse propositalmente: uma quadrilha grampeou a minha linha, não desligue que a polícia já está no circuito! Tiveram a manha de dizer: “ligue para o telefone da central de cobrança, porque aqui é a da central de segurança do banco”. Eu perguntei, você não vai me dar um número de protocolo? E ele me deu, improvisou. Tomaram conta da minha linha fixa literalmente. Impressionante a articulação do rapaz, que tentou de tudo, até mudar a voz.
Peguei o celular e liguei para a Net, para avisar que minha linha foi tomada pelos golpistas. A atendente disse na bucha: “aguarde na linha que eu vou fazer o procedimento para mudar o seu número”. Como? Negativo! Não vai não! Então qualquer um pode fazer isso, te tornar refém e a operadora não assume nada?
A Net tem que investigar e me dar uma resposta satisfatória sobre a segurança de minha linha! A moça, despreparada, foi infeliz em todas as abordagens. Quando ela me disse que meu telefone seria monitorado e em 48 horas me dariam uma resposta, a casa caiu. Todo o sangue frio que eu tive em todo o processo esquentou. Todo o meu trauma como vítima de empresas de telefonia neste país veio à tona.
Eu não queria ser a pobre e encarar uma pessoa como eu. Desliguei. Aí quem prendeu minha linha e ficava me ligando, insistentemente, era a tal da moça da Net. Que situação surreal!
Desliga essa merda! Falei, juro que falei. Ela não o fez e eu também não. Deixei o telefone e mudei de cômodo.
A parte boa da história: a conversa que tive pelo 190 da PM. Eu tinha que relatar.
Uma soldado preparadíssima, educada e paciente me atendeu com cordialidade, deu orientações e me encaminhou para o número da polícia civil que trata de casos como esse e outros mais cascudos.
O “José” da polícia civil me entrevistou literalmente e interagiu com colegas da sala: “não, esse é outro golpe”, disse a alguém de lá que perguntou o assunto. Fiquei sabendo que as quadrilhas estão diversificando e aprenderam a prender a linha. Depois de uma conversa precisa ele me encaminhou para a delegacia do meu bairro, onde devo comparecer pessoalmente para fazer um B.O.
Poderia não ir, mas faço questão porque não vou facilitar a vida da bandidagem que, a essa hora, já tem meu endereço e vão aplicar também para cima de outros.
Parece bobagem, mas o fato é que está faltando dinheiro para os ladrões também. Cair no golpe ou sair fora não é simples questão de esperteza, nem inteligência.
Se te pegam no sufoco, num dia ruim, sem querer você entra no clima de terror.
Penso nas pessoas ingênuas, idosas e até crianças que podem influenciar num momento como esse. Perdi a tarde nessa contenda. Mas pensam que acabou?
Quinze minutos depois chegou pelo Whatsapp uma mensagem de uma amiga idosa: “preciso de sua ajuda!
Foram feitas compras no meu cartão, que eu não reconheço.
Estão me ligando, o que eu faço?”.
Se fosse mole era pudim, mas não. Jornada dupla. E a dor de cabeça?

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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