
Não sou muito de fazer homenagens, mas creio que devemos comemorar as boas memórias. Elas nem sempre são felizes, mas são significativas quando deixam bons exemplos.
Meu pai foi um desses.
Falava pouco de si, quase nada, porque ele tinha que lidar com as próprias dores. E eram muitas.
Nunca teve um pai na sua vida. O seu morreu misteriosamente nas ruas de Casablanca, em exílio. Ele tinha apenas dois anos.
Esse trágico fim marcou severamente a história da família de seis filhos.
Era um homem afortunado, alfaiate dos bons, grão-mestre da maçonaria, perseguida pelo sanguinário ditador Francisco Franco. Por isso teve que se refugiar em outro país. Sim, meu pai era espanhol, de Córdoba.
Não é preciso dizer que minha avó, muito mais jovem, desabou.
Temendo pela vida dos filhos recusou a ajuda da maçonaria e voltou para o seu povoado em Andalucia, com seis bocas para alimentar.
Os mais velhos foram trabalhar e os menores para um internato católico. Não é preciso dizer que meu pai odiava os padres por tudo o que passou e viveu lá. Uma rigidez, com muitas punições, nada franciscana.
Muito cedo enfrentou a melancolia, o nome que se dava para a tristeza profunda que se sentia e só fazia chorar, que hoje chamamos de depressão.
Ele contava que só sentia alegria quando o irmão mais velho ia visitá-lo no internato e o levava para ver o mar. A mãe raramente ia vê-lo, endureceu, e se meteu a costurar, ofício que aprendeu com o marido.
O fato é que meu pai cresceu sem o amor de base. Sem pai, nem mãe. Sentia-se rejeitado e ainda menino foi viver com uma prima mais velha em Málaga, onde foi acolhido com amor.
Anos se passaram e ele se formou funileiro de aviões e foi trabalhar na Aviación Española, que deixou de existir há muitos anos.
A vida era muito dura naqueles tempos e contexto histórico. Sevilha, com toda sua eterna alegria efervescente, também era sombria diante daquele regime que assassinava e desaparecia com os que se opunham ao poder.
Aquele mar que o fazia se sentir feliz e sempre buscava, açoitava seu desejo de encontrar outra pátria onde pudesse construir uma vida de liberdade, com oportunidades.
Em sua juventude aventureira se meteu em um navio como clandestino e foi pego. Ficou em um presídio em Rabat, por seis meses, naquelas terras que levaram seu pai, sem nenhuma explicação.
Lá ele mergulhou nos livros e amadureceu. Não a ponto de desistir do seu sonho de um dia atravessar o oceano e aportar no Brasil. Dizia-se ser uma terra em franco desenvolvimento com trabalho para todos.
Ele teve que trabalhar duro para amealhar economias e partir.
Tinha 26 anos quando chegou aqui com seus sonhos na bagagem sem saber falar uma única palavra em português.
Sua motivação o fez superar até mesmo a surdez progressiva, o que dificultava ainda mais aprender a língua. Mas era resiliente e aplicado.
Tentou primeiramente trabalhar na Embraer, mas não aceitavam estrangeiros. Começou então em oficinas de automóveis. Tornou-se exímio lanterneiro. Desamassava carros com as mãos, usando peças pesadas de ferro. Era um artista.
Conheceu minha mãe, filha de imigrantes croatas, em São Paulo, aos 29 anos. Se enamoraram e se casaram.
Anos depois, já com dois filhos, mudaram-se para a praia, em São Vicente, onde cresci.
Em Santos, ele começou a trabalhar na funilaria de uma transportadora. Migrou de automóveis para caminhões, outra engenharia.
Mas seu sonho era ser projetista. Ele compreendia como funcionavam as engrenagens e como tudo se encaixava. Consertava relógios sem nunca ter aprendido o ofício, por pura curiosidade.
Resoluto, transformou a mesa da sala numa prancheta e se matriculou num curso de projetos. Chegava tarde da oficina e ia aplicar seus primeiros conhecimentos em papéis com lápis HB.
Logo seria um excelente profissional, um dos melhores que a Cosipa já teve, em um tempo em que tudo era feito à mão, com precisão milimétrica, sem os atuais computadores.
Vieram mais dois filhos. Não foi uma vida fácil. O dinheiro sempre foi contadinho, que minha mãe, exímia economista informal, esticava como ninguém.
Ele se opôs quando informei que queria ser jornalista. Na cabeça dele era uma profissão masculina. Mas eu insisti, briguei com ele e venci.
Depois me admirava e incentivava. Sempre fui sua menina, até seus últimos dias.
Sempre procurei honrá-lo sendo a melhor filha e profissional, porque tinha em quem me inspirar.
Já no fim da vida, mesmo hospitalizado, diagnosticado com câncer terminal, ele me deu boas lições.
Me disse palavras que guardo como relíquias de uma história de amor sem fim, onde o sal do oceano que ele atravessou e tanto amou e a doçura das suas memórias me marcaram profundamente.
Impossível esquecê-lo.
Hoje ele teria 99 anos, cumpridos em 2 de agosto passado.
Meu doce espanhol amou e foi amado. Escreveu sua história com a honra de um homem simples e apaixonado pela vida e que nunca desistiu de sonhar.
Meu pai Raul, um eterno menino.

