26 de maio de 2022
Ligia Cruz

Justiça discutível

Foto: UOL Esporte

As brasileiras estão indignadas e incrédulas com a soltura do assassino de Eliza Samúdio, o ex-goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes das Dores de Souza, na sexta-feira de Carnaval. Mesmo após ter sido condenado como responsável pelo crime da namorada e mãe de seu filho pelo Tribunal do Júri da Comarca de Contagem (MG) a uma sentença de 22 anos por homicídio triplamente qualificado (por motivo torpe, com emprego de asfixia e com recurso que dificultou a defesa da vítima), sequestro e ocultação de cadáver, a investigação e o trabalho da justiça mineira não foram suficientes para mantê-lo preso.

O auto de piedade foi a liminar assinada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Marco Aurélio Mello. E a família da vítima não é levada em consideração nessa circunstância? E o filho que era recém-nascido à época e foi mantido em cárcere privado junto com a mãe e despojado da convivência com ela? É assim que funcionam as leis no país.
O argumento do magistrado é o de que ele está preso há seis anos e sete meses e não foi julgado em Segunda Instância, o que não justifica mantê-lo em cárcere. Oras e o comparsa dele, o tal do “Macarrão”, Luiz Henrique Romão, também preso não é vip também? E os outros da quadrilha? O que leva a Alta Corte a importar-se em conceder habeas corpus para um criminoso frio dessa envergadura? Já que é para ser bonzinho, então que se faça o serviço completo.
Com assumida ignorância nessa intrincada tecnicidade legal, se a decisão se baseia na falha do andamento do processo-crime, que se garanta também, então, à sociedade a contrapartida de ser privada da convivência com essa espécie de canalha.  A maioria das pessoas é leiga e não entende porque um julgamento em Primeira Instância deixa de ser válido porque a moralidade e a punição aos culpados. É o que a sociedade espera.
Vamos abrir as portas da cadeia de vez então porque há processos com falhas a perder de vista nesse país. Isso acabaria com a crise do sistema penal. E aqueles que têm cacife para bancar bons advogados serão beneficiados pela da Suprema Corte rapidinho, numa linha de produção de habeas corpus impensável.
Para lembrar, a jovem Eliza, de 25 anos, desapareceu em 2010 após ter sido conduzida ao sítio do goleiro, no interior de Minas Gerais. Foi considerada morta pela justiça, apesar de seu corpo não ter sido encontrado, mesmo com a confissão de execução de outros réus do processo. Os comparsas afirmaram que o corpo foi esquartejado e dado a cães e os restos foram concretados.
À época o caso foi bastante divulgado porque a vítima gravou denúncia de que estaria sendo ameaçada por Bruno. Consta que ela estaria exigindo reconhecimento da paternidade de Bruninho e, obviamente pensão alimentícia. Todo mundo viu.
O Ministério Público de Minas denunciou outras pessoas, como os policiais José Lauriano de Assis e Gilson Costa, além do primo de Bruno, Jorge Lisboa Rosa, Marcos Aparecido Souza, o Bola, a namorada do goleiro. As denúncias levaram em conta o depoimento de um ex-detento que testemunhou as confissões e depois foi ameaçado. Alguns já estão fora da cadeia também.
Na saída da prisão, o criminoso declarou que “prisão perpétua não traria a vítima de volta”. Falou com a propriedade de quem sabe o que foi feito com o corpo de Eliza. E já está papagaiando que vai voltar ao futebol, que chorou muito na prisão, tentou suicídio e tal. Um pobre diabo desse não merece um final feliz.
O habeas corpus do ex-goleiro é a banalização do feminicídio, modalidade de crime sem precedentes no país. O ministro poderia ter rejeitado o pedido, devido a todas as implicações do crime macabro a que responde como autor. Mas não. Ele está soltinho, sem tornozeleira eletrônica ou restrições. E nós aqui, indignados como Sonia Moura, a mãe de Eliza, que continuará presa à sua dor até o fim dos seus dias.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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