29 de fevereiro de 2024
Ligia Cruz

A nossa Fogueira de São João


Hoje, há meio século, eu estava na rua amassando a areia com os pés descalços e correndo feito cabrita junto com a molecada para pegar gravetos e paus. Tudo para ascender a fogueira do último dia das Festas Juninas.
Talvez Pedro não tenha sido tão popular e querido como João porque muitos não o perdoaram por renegar Jesus por três vezes antes de o galo cantar. Mas ele foi um valente defensor de sua fé. Está na Bíblia a história toda, obra escrita por muitas mãos e de diferentes tempos. Para muitos, Pedro ainda é um personagem que integra a tríade junina e só.
O fato é que o dono do dia de hoje para os cristãos brasileiros não teve folguedos como João, o padrinho de Cristo, e nem é tão requisitado como Antônio, porque viveram épocas distintas e enfrentaram circunstâncias muito diversas. Todos conheceram a crueza da ignorância, mas isso não passava pela nossa cabeça. Dia de São Pedro era também de festa. Imaginar as tormentas do mundo da fé e da miséria humana, 2.000 anos atrás, era coisa da sexta-feira santa.
No imaginário infantil, 29 de junho era só um dia de festa caipira, sem qualquer tristeza, e véspera das férias do meio do ano. Hoje, talvez as crianças já entendam que só se vira santo após a morte. A gente não se dava conta disso.
O fato é que Pedro se reconciliou com o seu mestre após sua crucificação e morte. Assumiu a dura missão de peregrinar para levar a palavra de Cristo até o ocidente. Ao invés de peixes, foi pescar fiéis e, por esse encargo, acabou crucificado de cabeça para baixo, devido à sua abnegada fé. As mães não nos contavam nada disso e na igreja, não me lembro. Que criança prestava atenção no sermão?
Para mim, acostumada com a diversidade racial e religiosa em minha cidade, desde muito cedo, padre e o papa eram caras chatos, que bebiam vinho todos dias e ficavam ouvindo os pecados alheios. São Pedro, São João e Santo Antônio eram muito mais legais do que eles.
No começo da noite, no dia de São Pedro, a fogueira estava acessa e as batatas assando. Em torno dela, as mães conversavam, com um olho no fogo e outro no quentão para a criançada não exagerar.
Éramos de um bairro simples e pobre, sem calçamento e valetas na frente dos muros das casas. Crescemos assim, quase à beira-mar, correndo pelas ruas, sem medo. Havia alegria e os vizinhos que se ajudavam.
Estender bandeirinhas de uma casa a outra e soltar os pequenos balões feitos de papel de seda e cola de farinha eram o que tornava a festa ainda mais especial. Mesmo que não subissem mais do que dois metros, para logo se queimarem, a festa estava feita.
Antes das dez da noite a fogueira era só uma tímida brasa. Todos já estavam na cama com os cabelos enfumaçados e corações felizes. Uma paz que as crianças do meu tempo conheciam.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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