18 de abril de 2026
Junia Turra

Pai eterno

Nenhum de nós está preparado para se despedir das pessoas que ama, nem por fatalidade, nem por doença, nem por idade.

Não aprendemos isso e se aprendemos, não funciona o aprendizado.

Os que ficam precisam do abraço, do sorriso, de ouvir a voz, de olhar a cara fechada, o sorriso largo.

Somos matéria. Eles são alma plena.

Para quem não tem mais o pai ao alcance das mãos, o corpo pede o abraço e a alma se enche de saudade.

A memória busca todas as recordações.

Feliz daquele que pode dividir esse espaço terreno com um pai maravilhoso.

Ah, o meu valeu uma vida!

Tudo de melhor que eu sou, aprendi com ele.

A vida segue em frente. Ele seguiu a dele.

A minha ficou esquisita.

Aqui e ali eu me deparo com situações assim:

Olha que lugar lindo, meu pai diria…

Meu carro está com um defeito e o mecânico falou, vou ligar para o meu pai pra ver o que ele acha… Olha o que o político está fazendo, ah, meu pai ia falar…

A opinião dele pesava.

Nem sempre era definitiva. Discordávamos um do outro.

Mas como era sábio o meu pai!

De um lado um leão, do outro um cavalo selvagem.

Por mais que o cavalo demonstre toda sua braveza e saia a galope pelo pasto, é presa fácil para o leão.

Sorte que o leão adorava o cavalo e observava toda aquela “evolução na avenida”, ciente de que ao final do dia, ou depois de alguns dias, lá estaria o cavalo voltando para um “aparte”, para ficar ali sob a proteção do grande rei dos animais.

Só que um rei sabe aprender também.

E houve vezes em que o cavalo não voltou e o leão urrou: – cavalo, você tem razão.

Ou: – cavalo, volta, não importa quem tenha razão.

Agora a situação é incômoda.

O leão não está mais lá.

Não há mais motivo para voltar.

Às vezes não há nem mais motivo pra ir…

Uma parte de mim está faltando.

E todos os dias ela está faltando. Todas as horas.

Nunca houve um Dia dos Pais oficial para mim.

Todos os dias eram dele.

Agora que ele não está aqui, a data oficial é como um grande outdoor na minha janela:

– “Bom dia! Dia de sentir mais saudades ainda”.

O pior é que o Dia dos Pais aonde eu vivo é em outra data.

São dois dias de saudade ainda maior.

O grande poeta barroco Gregório de Matos escreveu:

“O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte; Mas se a parte o faz todo sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo todo.”

A vida segue!

Nós também não ficaremos para semente.

E eu gosto do que Sócrates disse e que está nos Diálogos de Platão:

-” Passaremos por aqui por no máximo 10 vezes. Um exemplo: Platão, que está em sua terceira encarnação e, nas três como filósofo, não volta mais a esse planeta. Depende da evolução, daquilo que cada um é”.

Mas e depois?

Volta-se para casa, o endereço de origem.

Nem todos nos encontraremos novamente.

Fica a dica:

Sabe aquela sensação de que você conhece a pessoa há tanto tempo? Ou a afinidade que é muito forte? Aquela coisa: somos da mesma turma?

Ah, é muito provável que o endereço original seja o mesmo ou na vizinhança.

E os iguais, de mesma família universal, sempre retornam à casa do Pai.

Nessa grande metáfora, o que importa é saber que quando a porta desse mundinho se fechar, adiante outra se abrirá e me agrada bastante a possibilidade de que, então, lá, esse Pai … seja o meu!

Junia Turra

Jornalista internacional, diretora de TV, atualmente atuando no exterior.

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Jornalista internacional, diretora de TV, atualmente atuando no exterior.

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