Em janeiro de 1959, há quase exatos 60 anos, saíam da linha de produção da fábrica da VW em São Bernardo do Campo (ainda em fim de construção) os primeiros fuscas produzidos no Brasil (como o na foto acima e abaixo, comigo ao volante). Equipados com motor de 1.200 cilindradas cúbicas – ou 1.2 litros, como mais comumente chamamos hoje – e “bananinhas’ nas colunas laterais fazendo as vezes de setas (piscas), aqueles estranhos carrinhos arredondados ainda traziam algumas peças e componentes importados da Alemanha que, pouco depois seriam substituídos por produtos brasileiros, mas representariam um marco histórico. Durante mais de duas décadas, aquele modelo, o VW Sedan, dominaria, literalmente, as ruas e estradas do país.
Henrique Koifman e o primeiro Fusca nacional, de 1959,
em gravação do programa Oficina Motor
Nada mau para um carro que havia sido lançado antes da Segunda Guerra Mundial na Alemanha. Automóvel mais popular de todos os tempos, não só por aqui, o fusca seria uma espécie de coadjuvante constante na vida de milhões de brasileiros – entre os quais este que vos escreve.
Lá em casa, o primeiro Fusca, um 1.200 1963 azul, não muito diferente daquele primeiro fabricado no Estado de São Paulo, chegou em 1965. É ele que aparece nas fotos em preto e branco e foi também o seu o primeiro volante que eu usei para brincar de dirigir um carro de verdade na vida. Tenho claras na memória as imagens de alguns passeios que fizemos a bordo, para lugares como a então remota Barra da Tijuca, o Alto da Boavista, algum parque ou a Ilha do Governador.
Henrique Koifman “dirige” o Fusca 1963 da Família, em 1965
Raríssimo os domingos em que não entrássemos no carro pela manhã e partíssemos asfalto (e paralelepípedo ou chão de terra) afora, terminando o dia exaustos, dormindo no banco de trás.
Fizemos também seguidas viagens de férias para Teresópolis, meus pais com nós três atrás e bagagens para um mês meticulosamente arranjadas por meu pai no porta-malas e na “cesta” atrás do banco traseiro. Me lembro até do cheiro daquele carro, dos chicletes que mastigávamos para desentupir os ouvidos na subida da serra e do rugido ritmado do motor. O pequeno 1.200 de menos de 40cv dava ao fusquinha um desempenho surpreendente na serra, deixando muitos carrões maiores para trás – não raro, envoltos em vapor cuspido por radiadores ferventes, fazendo fila pela água da Fonte da Santa, à beira da estrada.
Fusca 1200 da família
Depois veio um Fuscão 1.500 1971 branco lótus (mais abaixo), comprado zero por meu pai, que o dirigia animado com a diferença para melhor no desempenho. Nesse, além de passear pelo resto a infância – me lembro das vezes em que meia tropa de lobinhos foi transportada no banco de trás –, percorri a adolescência e, aos 18 anos, passei para o banco do motorista.
Companheirão, o fuscão me levou para a faculdade, deu apoio buscando namoradas, transportou os instrumentos (inclusive a bateria) de minhas bandas, ajudou em mudanças, levou a galera para tudo o que era canto e tornou possíveis e memoráveis inúmeras viagens, inclusive para lugares em que só se conseguiria chegar de jipe – ou, claro, de fusca.
Fuscão 1500 da familia Koifman, 1971 | Victor Koifman
Já fora da casa dos meus pais, no finalzinho dos anos 1980, comecinho dos 1990, cheguei a ter um 1.200 1959 “queixo duro” (com a primeira marcha não sincronizada, que produzia um som parecido com um choro quando ele começava a andar) como carro de uso diário – incluindo viagens noturnas para Teresópolis, com a estrada iluminada por seus fraquíssimos faróis de 6 volts. Nunca nos deixou na mão.
O 1.500 foi preservado na garagem por muitos anos, mesmo depois que meu pai não quis mais dirigir – no fundo, ele só quis ter e usar o carro para poder nos levar a “lugares bacanas”, para passarmos mais horas todos juntos, conversando ou ouvindo música no rádio AM do painel, para que tivéssemos uma infância ainda mais maravilhosa. Cheguei a andar e a até viajar no fuscão levando nosso filho mais velho (hoje com 23 anos) sentadinho em sua cadeirinha no banco de trás.
Fuscas nacionais de várias épocas em encontro do Veteran Car Club
Pouco depois, porém, eu e meus irmãos já não o usávamos mais. Ele continuava em ótima forma, com quase 100 mil km rodados (pouco para seus mais de 30 anos de uso) e totalmente original. Tínhamos carros mais novos, confortáveis e seguros e viajar com o Fusca se tornara uma aventura desconfortável. Meu pai até chegou a pensar em renovar a carteira de motorista e voltar a usá-lo. Mas acabou preferindo vendê-lo para um amigo meu, que já cuidava de outros três VW antigos. Poucos anos depois, esse amigo teve de se mudar de cidade e repassou o fuscão para um outro colecionador e, então, perdemos o contato com ele (o carro). Pensando nisso tudo hoje, sinto como se, de certa forma, um parente tivesse se mudado para longe.
Há alguns anos, gravando um dos primeiros episódios do programa Oficina Motor, tive a oportunidade de reviver um pouco essa história. Juntamos no mesmo roteiro um modelo 1959 (o primeiro nacional) e um 1986 (abaixo, o último, antes de sua ressurreição forçada pelo presidente Itamar, em 1993, saindo novamente de linha em 1996). Foi como revisitar parentes queridos.
Fusca 1986, o “último” ano de fabricação no Brasil antes do Itamar
Ah, sim, quase me esqueço de mencionar que 20 de Janeiro é o Dia Nacional do Fusca aqui no Brasil e, também aproveitando os tais 60 anos de que falamos lá na abertura, vão acontecer festas e exposições pelo país afora. Se você tem mais de 30 anos, é uma boa chance de ir visitar um velho conhecido. Se tem menos, vale conhecer um pedaço simpático da nossa história.
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