4 de novembro de 2026
Guilherme Fiúza

Intervenção nos juros preocupa o mercado

André Lara Resende (em foto de 2016) propôs redução forçada dos juros. (Foto: Marina Guillén/EFE)

A proposta de tabelamento dos juros, trazida ao presidente reeleito pelo economista André Lara Resende, assustou o mercado. Não só o mercado: assustou todo mundo. Ou melhor: todo mundo que não quer ver o país atirado em aventuras heterodoxas.

André Lara Resende é um dos autores e executores do Plano Real. Pode-se dizer que não há credencial mais valorizada no Brasil para um economista. Tratou-se não só de arquitetar uma reforma monetária de sucesso, mas também de implantá-la no fogo cruzado da política, realizando uma profunda faxina fiscal no país – o que significa dizer: contrariando uma multidão de interesses e feudos arraigados.

Agora Lara Resende surge com uma proposição que, de certa forma, contraria o seu próprio legado. Na época do Real, a âncora monetária (taxa de juros alta) foi utilizada como um remédio amargo para conter a especulação contra a moeda nascente. Uma vez estabilizado o real, a âncora foi retirada e a taxa de juros iniciou sua trajetória natural de queda, consequência direta do controle da inflação.

Hoje temos uma inflação constantemente fora da meta e uma taxa de juros pressionada por esse fator. O Comitê de Política Monetária do Banco Central – Copom, entidade que Lara Resende ajudou a consolidar – aponta como componente determinante da pressão inflacionária a expansão dos gastos públicos. A observação quase consensual sobre a atual política macroeconômica é de que se faz necessário um ajuste fiscal (contenção de gastos) – e esse tipo de observação não vem só de setores da oposição.

Do ponto de vista governamental, a proposta de André Lara Resende traz uma aparente vantagem política: seria possível conter os juros altos sem precisar cortar gastos

Mas aliados e até integrantes do governo já declararam que não haverá ajuste fiscal. Inclusive com a premissa de que isso não foi prometido na campanha. Se o remédio para os juros altos não é o governo controlar seus gastos, mas controlar a própria taxa de juros, passamos a um terreno bastante exótico em termos de expectativas.

Do ponto de vista governamental, a proposta de André Lara Resende traz uma aparente vantagem política: seria possível conter os juros altos sem precisar cortar gastos. Mas o fato é que nem a área econômica do governo endossou a proposição. Talvez diante da reação muito negativa do mercado, emissários do presidente já informaram que a proposta de tabelamento dos juros não está em cogitação para o próximo mandato presidencial.

Entre os que querem discutir o Brasil a sério, fica a pergunta intrigante sobre a origem dessa ideia inquietante. Será que o país entrará numa espiral de insensatez? Será que o cenário será tomado por franco-atiradores e formuladores voluntaristas? É interessante notar que acadêmicos como Roberto Mangabeira Unger, que já serviu a governos petistas e exerce uma espécie análoga de experimentalismo, neste ano estavam na oposição.

Reeleito em pleno desgaste econômico e político, o governo Dilma colocou Joaquim Levy, um economista respeitado pelo mercado e não afeito a aventuras heterodoxas, para tentar dar um tom de responsabilidade na gestão fazendária (acabou não sendo suficiente para corrigir o rumo). Vejamos se virá da atual administração reeleita algum sinal similar, ou se a aposta diante das perspectivas preocupantes será apenas em propaganda.

Fonte: Gazeta do Povo

Guilherme Fiúza

Jornalista e escritor carioca, é autor de vários livros. Roteirista de TV, autor de teatro e jornalista político no debate da política atual.

Jornalista e escritor carioca, é autor de vários livros. Roteirista de TV, autor de teatro e jornalista político no debate da política atual.

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