16 de fevereiro de 2026
Carlos Eduardo Leão

Você é NOLT? Cuidado! Você pode ser NOLTificado

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Trocar “idoso” por um rótulo moderno parece inofensivo — até alguém decidir que os privilégios adquiridos viraram exageros de sobrevivente.

O mundo ama rótulos. Ama tanto que, se deixar, cria um novo antes do café esfriar. Agora inventaram o tal do NOLT — New Older Living Trend. Em bom português: uma tentativa elegante de dizer que idoso… não é idoso. É quase um “idoso gourmet”, sem rugas conceituais, sem passado, sem direitos e, se possível, sem privilégios.

No Brasil, essa ideia é especialmente perigosa. Aqui, quando alguém resolve “modernizar” conceitos, normalmente termina em imposto novo, direito a menos e um sorriso cínico explicando que é “para o bem coletivo”.

A narrativa é a seguinte: existe uma nova geração de pessoas acima dos 60 que não se reconhece como idosa. Como se “idoso” fosse um xingamento, uma condenação, um atestado de inutilidade. Ora, quem foi que disse isso? Os próprios rótulos que agora querem reinventar a roda — ou melhor, tirar a roda do lugar.

Vamos combinar uma coisa: ninguém ficou ativo, produtivo, curioso ou vivo porque inventaram o NOLT. Isso já acontece há décadas. Os idosos de hoje são diferentes dos seus pais e avós simplesmente porque o mundo mudou, a medicina evoluiu e a expectativa de vida aumentou. Não foi um insight progressista global que fez o sujeito de 70 anos correr, empreender ou estudar. Foi vontade, saúde e, muitas vezes, necessidade.

Mas aí surge o iluminado:

— “Não são idosos! São NOLTs!”

Pronto. A partir desse momento, o perigo está instaurado.

Porque o passo seguinte é óbvio, especialmente no Brasil:

“Se não são idosos, por que têm privilégios?”

“Se são tão ativos, por que meia entrada?”

“Se estão vivendo tanto, por que aposentadoria?”

E assim, num passe de mágica sem coelho nem cartola, o direito vira privilégio excessivo, o privilégio vira abuso e o abuso vira arrecadação.

Chegar à velhice não é derrota. É condecoração. É atravessar a linha de chegada da vida com medalha no peito e ainda fôlego para dar entrevista. É virar marechal da própria história. Quem chega aos 60, 70, 80 não está “ultrapassado”; está aprovado.

Os benefícios legais — filas, meia entrada, prioridade — não são esmolas. São reconhecimento social de quem venceu o jogo. Tirar isso com base em um novo nome bonito é o velho truque de sempre: muda-se o vocabulário para justificar a perda.

E não sejamos ingênuos. Toda vez que surge uma “nova tendência global”, alguém está fazendo conta. E raramente é a seu favor.

No Brasil, todo dia acorda um bobo e um esperto. Quando se encontram, nasce uma tese acadêmica, um conceito moderno… ou um NOLT.

É melhor ficar atento. Porque, do jeito que vai, daqui a pouco idoso só com 90.

Sem meia.

Sem prioridade.

Sem direito.

Mas com um nome lindo em inglês explicando por quê.

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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