12 de maio de 2026
Carlos Leão

Restaurantes brasileiros: onde comer virou esporte radical

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Outro dia, bisbilhotando o Instagram — esse zoológico antropológico a céu aberto — deparei-me com o desabafo lúcido e sofrido de Silvia Poppovic sobre restaurantes brasileiros, que teve, inclusive, o total aval do seu amigo Boni.

Li, concordei, assenti com a cabeça e, se estivesse em um restaurante, teria feito isso aos gritos para conseguir ouvir meus próprios pensamentos.

Porque comer fora no Brasil deixou de ser uma experiência gastronômica para se tornar uma prova de resistência sensorial. Um Iron man auditivo. Um CrossFit do tímpano.

Gosto imensamente de restaurantes. Ou melhor, gostava. Hoje, frequentá-los é aceitar, voluntariamente, uma tortura moderna que mistura barulho, exibicionismo, falta de noção e uma trilha sonora digna de trio elétrico em ambiente fechado.

O problema não é apenas o ruído. É o conceito do caos. Pessoas falam como se estivessem tentando ser ouvidas do outro lado do Atlântico. Música ao vivo — sempre ao vivo, sempre alta, sempre desnecessária — invade o ambiente com a delicadeza de um caminhão desgovernado.

Arrastam cadeiras como se estivessem montando um set de filmagem. Gritam. Gargalham. Assistem vídeos no celular no viva-voz, porque dividir o áudio da vida alheia é um gesto de amor coletivo, aparentemente.

E, claro, há o momento mais aguardado da noite: o “Parabéns pra Você”. Não importa se você não conhece o aniversariante, não foi convidado e só queria comer em paz. Você vai cantar. Vai bater palma. Vai sofrer.

Tudo isso acontece sem distinção social, cultural ou gastronômica. Tanto faz se o restaurante ostenta estrela Michelin ou estrela Cadente. A falta de educação é democrática, inclusiva e altamente sonora.

Some-se a isso o exibicionismo. O desfile de moda não solicitado de donzelas e mancebos super afetados competindo veladamente – o que é irônico – quem está mais preenchido, botoxado ou barulhento.

A geração Z, ruidosa como poucas já fabricadas pela espécie humana, domina o ambiente. Os millennials não ficam muito atrás — apenas fazem barulho com um pouco mais de culpa e menos volume, o que já é algum progresso evolutivo.

E os donos dos restaurantes? Esses parecem acreditar que acústica é um detalhe supérfluo. Afinal, para que ouvir quem está à sua frente se você pode postar uma foto do prato, marcar o local e provar que esteve ali? Comer virou evento, não experiência. O paladar é figurante. O protagonista é o barulho.

Sem contar a farra dos guardanapos: um ritual coletivo de arremessos festivos ao alto, como se o ambiente fosse uma boate ibérica dos anos 90 ou uma celebração involuntária de um famoso episódio europeu que, definitivamente, não precisava de reencenação tropical.

Não surpreende que, diante desse cenário, cada vez mais pessoas estejam migrando para o delivery, contratando chefs particulares ou se aventurando na própria cozinha. Em casa, entre amigos, bons papos, bons vinhos e uma música que respeita o limite da audição humana, comer volta a ser prazer — e não um teste de sanidade.

Porque, convenhamos: sair para jantar não deveria exigir tampões de ouvido, paciência Zen e seguro emocional. Mas, no Brasil de hoje, infelizmente, exige tudo isso… e um pouco mais.

Bon appétit. E boa sorte.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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