16 de fevereiro de 2026
Carlos Eduardo Leão

Práticas de sobrevivência ao Personal Trainer moderno

Depois de certa idade, o homem passa a obedecer a poucas pessoas: o médico, o corretor de seguros e o personal trainer.

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“Cadu, a Rita chegou!”

O anúncio vem carregado de júbilo, como se a arca tivesse finalmente atracado no Monte Ararat. Thaïs vibra. Há brilho nos olhos, postura ereta e um orgulho silencioso por ver o marido sendo submetido, semanalmente, a um ritual que mistura sacrifício grego, penitência medieval e reality show fitness. Para ela, é evolução. Para mim, sentença com hora marcada.

É curioso como essa jornada recebe tantos nomes, todos tentando suavizar o sofrimento: não se faz mais “exercício” — palavra mofada, com cheiro de cartilha escolar de 1952. “Malhar” morreu junto com as polainas. “Ginástica”, então, só se usa depois dos 75, junto com bengala, fila preferencial e um pé já perto da cova. Hoje a dúvida é filosófica: “treinar” ou não “treinar”, eis a questão. E Shakespeare jamais frequentou uma academia — penso eu.

O personal trainer brasileiro, por sua vez, é uma entidade antropológica própria. Um cruzamento entre coach motivacional, sacerdote do suor e sádico funcional. Ele não quer apenas seu bem-estar: quer ver até onde sua alma aguenta antes do colapso iminente. Há prazer ali. Contido e artesanal. Uma combinação curiosa de cordialidade e rigor como se fossem monges especializados em sofrimento alheio.

Essa casta moderna — os líderes espirituais da geração saúde — ocupa hoje um lugar simbólico equivalente ao de grandes figuras messiânicas: para os wokes e pré-wokes, o personal vale mais que filósofo; para os indecisos, mais que terapeuta; e, em certos lares, mais influente que o cônjuge. Em caso de incêndio, salva-se o personal primeiro. Depois vê o resto.

Todos parecem ter saído da mesma fábrica. Uniformizados não por lei, mas por genética estética. Roupas coladas o suficiente para revelar músculos que têm nome próprio. Shapes alimentados por Whey, Creatina, Palatinose, Ômega 3, Pré-workout e outras substâncias cujo rótulo parece bula de remédio suíço. Um banquete químico digno da nobreza renascentista.

Os acessórios também seguem dogma rígido. Smartwatch que apita mais que monitor cardíaco de UTI. Tênis com tecnologia da NASA. Regatas cavadas até o limite da ética. Leggings que desafiam a física. Marcas que custam quatro dígitos e dão a sensação de que o suor sai mais caro e mais fotogênico. Tudo isso compondo a estética da nova aristocracia trabalhadora do corpo.

E as garrafinhas… ah, as garrafinhas! São patrimônio imaterial. Objeto litúrgico. Item cromossômico. Cada personal nasce com uma. Algumas têm canudo, outras alça, outras frases motivacionais ameaçadoras. Usadas a tiracolo, atingem o ápice do surreal: Dalí explicaria, Freud analisaria, mas ninguém ousa questionar. É assinatura. É brasão. É RG.

As academias de prédio, outrora templos do esforço solitário, hoje jazem vazias como igrejas em dia útil. O novo ponto de encontro são as “Body alguma coisa”: Box, Hit, Lab, Tech, Concept. Espaços onde ricos, quase ricos e aspirantes a ricos compartilham o mesmo sonho: viver muito, sofrer pouco e postar melhor.

No fundo, sejamos honestos: toda essa indústria do movimento, essa obsessão moderna com o corpo não nos transforma em versões superiores de nós mesmos. Não nos ilumina. Não nos redime. Não nos salva. Ela apenas impede que a gente piore — o que, convenhamos, já é um serviço extraordinário.

E lá vou eu. Alongando. Respirando. Fingindo entusiasmo. Porque, afinal, a Rita chegou. E contra isso não há abdominal que resolva.

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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