
“Magnitsky é o seu pastor e o visto lhe faltará”
Juro procês: se eu tivesse meu visto cancelado pelo Trump, o nosso Ken com bronzeamento a jato, eu até me sentiria honrado. Um block internacional do laranjão é o must! Honestamente? Tão fazendo um verdadeiro escarcéu como se não pisar em Orlando fosse o fim da civilização ocidental. Só que é!
Ah, não poder ver o Mickey, o Pato Donald e o Pateta? Gente… Três personagens vistos toda semana em Brasília e sem precisar pagar ingresso. E se a saudade bater, tem a Turma da Mônica pra suprir com muito mais conteúdo, muito menos marketing e zero fila na montanha-russa da hipocrisia.
Agora, confesso: o que me cortaria o coração seria não poder visitar o Castelo da Cinderela. Sim, é lindo. Mas já andou de trenzinho do Beto Carrero depois de comer coxinha com caldo de cana? Emoção real sem o risco de ser multado por usar Crocs com meia.
E o Epcot Center? Esqueçam! Temos o glorioso Hopi Hari! A versão brasileira que nada deixa a desejar ao Epcot, só que com mais emoção: nunca se sabe se o looping vai, de fato, voltar. A Coca-Cola daqui não é tão gelada quanto a de Orlando, mas em compensação vem com um toque de emoção chamado “energia elétrica instável”.
E a Estátua da Liberdade? Aquela Giselle Bündchen com a cara de quem já viu coisa demais? Não vai fazer falta não, gente! Pra que Miss Liberty importada se temos réplicas com alma? A da Havan, que parece a prima distante que ficou presa no AliExpress, e aquela da Barra, uma espécie de Lady Gaga depois de um réveillon puxado.
Vejam que, até agora, ter ou não o visto americano não muda muita coisa. Exceto, claro, pelo sabor inigualável de um Big Mac que a gente só valoriza quando morde um X-Burger do Xodó e se pergunta: “será que isso é cheddar ou tinta guache?”.
E que me perdoe o hotdog do 75º andar do Empire State, mas nada nessa vida-de-meu-Deus compara-se ao pão, linguiça e dignidade do Roselanche de Barbacena, às 3 da manhã. E isso o Trump nunca vai ter. Trata-se de patrimônio imaterial da ressaca nacional.
Comprar na Rodeo Drive? Não, filhinho. A 25 de março é a Rodeo que deu certo. É a mesma emoção de consumir na 5ª Avenida ou Faubourg Saint Honoré só que com calor, multidão, gritaria e o risco real de comprar um “Abibas”. Vamos rebatizar aquilo de March 25th Avenue e pronto: Paris, Milão, São Paulo. É capaz até de turista americano querer selfie com camelô.
Agora, imagina a revanche: Brasil bloqueando o visto do Trump. Seria a vingança geopolítica mais gostosa desde que o Brasil tomou 7 da Alemanha. Será que o loiro ficaria arrasado de perder a chance de desfilar seu bronze cenográfico pelas praias cariocas com a emoção de um arrastão poético no Leme, de comprar o IPhone 17 no Shopping Oi de BH e de adquirir alguns coletes à prova de bala como souvenir?
Teria que se conformar com Saint-Tropez, coitado. Sem tropeiro, sem feijoada, sem caipirinha e sem torresmo. Restaria escargot e soufflé. É o que se tem pra quem não pode se deliciar com uma rabada no fogão à lenha em solo tupiniquim.
Só peço uma coisa: que o Trump, na sua fúria retaliatória pela abstinência de feijoada e samba, não resolva estender a Magnitsky na gente. Que se atenha aos desafetos. Isso sim seria golpe baixo. Belém-Belém-Nunca-Mais-Fico-de-Bem é coisa de criança mimada — não de Ken com botão nuclear.

