24 de maio de 2022
Rodrigo Constantino

É preciso transformar os empreendedores em heróis

 

blog-5Uri Levine. Fonte: Folha

Em entrevista à Folha, Uri Levine, o israelense fundador do aplicativo Waze, tenta explicar de forma resumida o segredo de Israel para liderar as inovações tecnológicas no mundo moderno:

Em Israel, inovação e particularmente empreendedorismo são algo muito, muito importante. Mais do que em outros países pelo mundo, de longe. Acredito que existam algumas razões para isso. Uma é por causa do Exército. Eu não dizendo que recomendaria a alguém que vá para o Exército, mas em Israel isso é obrigatório. [Em Israel o serviço militar é obrigatório por três anos para homens e por dois anos para mulheres]

E quando você vai para o Exército, duas coisas acontecem. Uma é que você amadurece mais rapidamente. Se você amadurece mais rapidamente, você pode fazer coisas mais rapidamente do que em outros lugares. A segunda coisa, que diria que é tão importante, é que você não tem medo do fracasso. E esse medo do fracasso é que atrasa muitos países.

Mas há outros fatores. Parte disso está nas mãos de vocês [da mídia]. Se você acredita que o Brasil deveria ter mais empreendedores, então transforme-os em heróis. Se a mídia promove os empreendedores, haveria mais gente querendo embarcar nessa aventura. Os jovens buscam modelos, olham a cultura à sua volta. Se a mídia transformasse os empreendedores em modelos de conduta, haveria muito mais empreendedores.

A sua visão vai ao encontro daquela dos autores de Start-up Nation, que já resenhei para o antigo blog da Veja. O israelense não tem medo do fracasso, e sim de não tentar, não arriscar. Aprende desde cedo a criticar e questionar seus superiores. E sua cultura enaltece a figura do empreendedor, daquele que se aventura em terreno desconhecido para criar algo novo e útil.

Certa vez dei uma palestra num evento em que estava Salim Mattar, um dos fundadores da Localiza, empresa de aluguel de veículos que compete, com sucesso, com as gigantes internacionais. A fala de Salim chamou a minha atenção, principalmente quando ele perguntou onde estavam os nomes de ruas e avenidas em homenagem aos empreendedores brasileiros. Só se vê nome de político, inclusive ditador. Mas empreendedor que é bom, nada.

O Brasil não tem uma cultura de valorização dos empreendedores, que enaltece o risco, o desbravador que mergulha numa aventura para inovar no mercado. Nosso país prefere a estabilidade do serviço público, olha para o estado como uma espécie de Deus laico que vai resolver todos os nossos problemas.

O ambiente de negócios não ajuda, pois é um dos mais hostis do mundo. A burocracia é asfixiante, a carga tributária é indecente, a infraestrutura é capenga e a mão de obra é pouco qualificada. Mas o fator cultural também é relevante. Nossos empreendedores simplesmente não são valorizados o suficiente. Ao contrário: a mentalidade marxista os trata como exploradores!

Isso precisa mudar. As novelas deveriam apresentar empreendedores bem-sucedidos, felizes, decentes, como se fossem heróis. Foi o grande mérito da novelista russa Ayn Rand: pintar o empreendedor como um herói, como alguém que está em busca da excelência, de um legado, e não como um oportunista explorador de olho no ganho fácil de curto prazo, como muitos enxergam esses empreendedores.

Terminei neste fim de semana uma biografia de Elon Musk, o empreendedor por trás do PayPal, da Tesla e da SpaceX, e fica claro seu comprometimento com uma causa, na qual está disposto a colocar tudo a perder. Quase quebrou em 2008, na crise. Hoje tem mais de US$ 10 bilhões de patrimônio. Explorador? Só se for do espaço! Sua fortuna é mérito pessoal, fruto da criação de muito valor para a sociedade.

Os empreendedores não são os vilões, e sim os políticos e burocratas que criam obstáculos ao empreendedorismo. Acho que o Brasil deveria ter até revistas em quadrinho com heróis empreendedores. Está na hora de mostrar ao público quem efetivamente produz a riqueza que os esquerdistas só querem pilhar e distribuir, como se caísse do céu…

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