22 de outubro de 2026
Editorial

Roberta Luchsinger: o pesadelo de Lula pode estar apenas começando

Há personagens que circulam pelos corredores do poder sem despertar grandes atenções. O problema começa quando suas relações com figuras influentes vêm à tona e elas ameaçam contar o que sabem. Roberta Luchsinger tornou-se uma dessas personagens, e sua disposição de fazer uma delação premiada pode transformar um caso incômodo em uma dor de cabeça para Lula e seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Em entrevista à CNN Brasil, Roberta afirmou que pretende colaborar com a Justiça e que não poupará ninguém, nem mesmo o presidente e seu filho. Disse também que Lulinha mantinha encontros frequentes com ministros do governo, contrariando declarações de Lula sobre essas relações. É preciso cautela: anunciar uma delação não significa ter o acordo formalizado, muito menos comprovado crimes. Mas seria igualmente imprudente ignorar as declarações de alguém que afirma possuir informações relevantes para uma investigação.

As perguntas não surgiram do nada. Há suspeitas envolvendo relações empresariais, tentativas de intermediação de interesses perante órgãos públicos e um pagamento de R$ 249 mil feito por Roberta a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula. A empresária afirma que se tratou de um empréstimo pessoal, versão também sustentada pela defesa do ex-assessor, que diz que a dívida foi paga. Cabe aos investigadores esclarecer a origem e a finalidade da transferência.

Também estão sob investigação possíveis conexões entre Roberta, Lulinha e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS. O que se procura saber é se as relações pessoais e empresariais serviram para intermediar interesses privados junto ao poder público. Conhecer ministros ou frequentar gabinetes não é crime. Usar essas relações para obter vantagens indevidas, se comprovado, é outra história.

A reação de Lula, que chamou Roberta de “pilantra”, acrescentou temperatura política ao episódio, mas não respondeu às questões centrais. Desqualificar quem faz uma acusação não prova que ela seja verdadeira; tampouco demonstra que seja falsa. Roberta tem seus próprios interesses e está sob investigação, o que exige cautela diante de suas declarações. Isso não lhe tira, o direito de colaborar com as autoridades.

A ironia é que Lula construiu sua trajetória política apresentando-se como “defensor dos pobres e adversário dos privilégios”. Agora, as suspeitas em discussão envolvem relações familiares, empresários, intermediários e encontros reservados nos círculos mais restritos do poder. Nada disso constitui prova automática de irregularidade, mas tudo merece esclarecimento.

O governo não pode exigir rigor absoluto quando as suspeitas atingem adversários e, diante de perguntas incômodas sobre seu próprio entorno, refugiar-se na alegação de perseguição política. A mesma regra deve valer para todos: presunção de inocência, investigação independente e provas, sem blindagem partidária nem condenações antecipadas.

Se Roberta realmente possui informações inéditas, deverá apresentá-las e permitir que sejam confrontadas com documentos, mensagens, registros financeiros e depoimentos. Se suas afirmações não resistirem à verificação, isso também deverá ficar claro. A verdade não depende da simpatia que se tenha pela testemunha, nem da antipatia que se nutra pelo acusado.

A delação, por enquanto, é uma intenção anunciada, não um desfecho. Mas o episódio já impõe uma pergunta incômoda ao Planalto: se tudo foi legítimo, por que não deixar que os fatos falem por si?

No fim, pouco importa quem chamou quem de pilantra ou mentiroso. O que importa é esclarecer quem se reuniu com quem, quais interesses estavam em jogo e se houve favorecimento indevido. Quando as relações do poder entram na mira das investigações, insultos não substituem explicações — e sobrenomes não podem funcionar como escudos.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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