
Querem o voto do eleitor, mas esqueceram de mostrar os candidatos
Na eleição em que mais se fala em voto útil e segundo turno, o eleitor chega às urnas sem ter visto um confronto direto entre os principais candidatos. Conveniente para eles. Péssimo para quem vota.
Há algo de profundamente estranho nesta eleição presidencial.
O brasileiro será chamado às urnas para escolher o próximo presidente da República depois de uma campanha inteira em que os dois principais protagonistas da disputa não tiveram sequer a oportunidade — ou a disposição — de se enfrentar diretamente num debate na reta final.
O eleitor terá de decidir. Mas decidir baseado em quê? Em propaganda? Em cortes de vídeos nas redes sociais? Em discursos cuidadosamente preparados? Em pesquisas? Em memes? Ou naquilo que o algoritmo decidiu que ele deveria assistir?
É uma pergunta incômoda. E justamente por isso precisa ser feita.
Debate presidencial não é entretenimento. Não é programa de auditório. Não é favor concedido pelos candidatos às emissoras de televisão. É informação. E, numa eleição presidencial, informação é matéria-prima do voto.
Quando dois candidatos disputam a liderança e uma parcela expressiva do eleitorado ainda está indecisa — ou considera mudar de candidato para fazer o chamado voto útil — o confronto direto deixa de ser uma questão secundária. Ele passa a ser essencial.
Porque o eleitor não quer apenas ouvir o que cada candidato diz sobre si mesmo. Ele quer saber o que um candidato tem a dizer quando o outro está sentado diante dele. Esta é a diferença.
No discurso de campanha, todos são maravilhosos. Todos têm soluções. Todos sabem exatamente o que fazer. Todos prometem combater a corrupção, melhorar a economia, defender a democracia, criar empregos, reduzir desigualdades e fazer o Brasil voltar a ser feliz. É quase uma unanimidade.
O problema começa quando aparece a pergunta: “Como?”
E piora quando o adversário pergunta: “E por que você não fez isso quando teve oportunidade?”
Aí está o verdadeiro debate! É justamente esse momento que desapareceu da eleição. O candidato escolhe. O eleitor paga a conta.
Há uma lógica curiosa nisso tudo. O candidato tem todo o direito de decidir onde, quando e como fará sua campanha. Pode conceder entrevista. Pode participar de podcast. Pode publicar vídeo. Pode falar para seus apoiadores. Pode até passar longe de qualquer ambiente em que exista o risco de uma pergunta incômoda.
Tudo perfeitamente legítimo. Mas o eleitor também tem direito a alguma coisa. Tem direito de comparar.
E comparar não significa apenas colocar duas propostas lado a lado num programa de governo. É observar comportamento. É verificar preparo. É perceber contradições. É descobrir quem domina os números e quem depende de frases feitas. É ver quem responde e quem desconversa. É identificar quem consegue enfrentar uma pergunta difícil sem transformar a resposta num ataque ao adversário.
Isso não se consegue assistindo apenas a vídeos de campanha. Muito menos ao conteúdo cuidadosamente selecionado pelas equipes de marketing.
E há ainda o eleitor do voto útil. A ausência de confronto é ainda mais grave para quem está pensando no voto útil. Esse eleitor não está necessariamente apaixonado pelo candidato que pretende escolher. Ele está fazendo contas. Quer saber quem tem chances de chegar ao segundo turno. Quer decidir se mantém sua primeira opção ou se migra para outro candidato. Quer evitar desperdiçar o voto.
Pois bem. Como fazer essa escolha sem colocar os candidatos frente a frente? É como escolher entre dois automóveis ouvindo apenas o vendedor de cada concessionária. Um diz que seu carro é maravilhoso. O outro diz exatamente a mesma coisa. E ninguém permite que os dois sejam colocados na mesma pista.
Depois perguntam por que o eleitor está indeciso. Ora, convenhamos. Talvez seja justamente isso que alguns candidatos prefiram este caminho.
O debate tem um defeito imperdoável para quem vive de comunicação política moderna: ele é imprevisível.
Na propaganda, o candidato controla tudo. No debate, não. O adversário pode lembrar uma declaração antiga. Pode apresentar um número diferente. Pode fazer uma pergunta para a qual não existe resposta confortável. Pode explorar uma contradição.
E existe ainda o pior dos problemas: o candidato pode simplesmente se sair mal. Por isso, talvez seja muito mais confortável falar sozinho.
Na internet, você escolhe a pergunta. No vídeo, escolhe o corte. Na propaganda, escolhe a frase. No podcast, pode escolher até o ambiente. No debate, porém, o adversário está ali. E milhões de brasileiros estão olhando.
O eleitor vai votar. Mas vai votar sabendo? Essa é a questão que deveria preocupar a todos.
Não se trata de defender Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato. Trata-se de defender o direito do eleitor de conhecer aqueles que querem governar o país. Porque depois que a urna fecha, acaba a campanha. Aí começam as consequências.
Se o governo for bom, todos ganham. Se for ruim, todos pagam. Se a economia desandar, quem paga não é apenas quem votou no vencedor. Se as instituições entrarem em crise, todos serão afetados. Se houver aumento de impostos, o boleto não pergunta em quem você votou. Se houver desemprego, a carteira de trabalho não pergunta qual era sua preferência eleitoral.
O eleitor escolhe sozinho. Mas as consequências da escolha são coletivas. Por isso, é muito conveniente para um candidato fugir do confronto. Só não é conveniente para a democracia.
No domingo, milhões de brasileiros entrarão na cabine de votação. Alguns terão certeza absoluta. Outros estarão divididos. Outros procurarão o voto útil.
E haverá aqueles que apertarão o botão ainda perguntando a si mesmos: “Será que estou escolhendo o melhor candidato ou apenas aquele que consegui conhecer melhor?”
É uma pergunta que os candidatos deveriam responder, mas, para isso, seria preciso que eles aceitassem responder.
Frente a frente. Sem edição. Sem corte. Sem algoritmo. Sem assessor soprando a resposta. Só o candidato, o adversário e o eleitor. Parece simples. Talvez seja justamente por isso que não aconteceu.
E assim chegamos ao dia da eleição com uma situação que deveria ser constrangedora para todos: querem o voto do eleitor, mas alguns parecem ter feito de tudo para que ele não pudesse comparar.

