30 de julho de 2026
Tecnologia

O criminoso migrou para a tela

Durante muito tempo, quando se falava em criminalidade, a imagem que vinha à cabeça era a do assaltante armado, do ladrão de carros ou da quadrilha especializada em roubos. Era uma violência visível, que ocupava as manchetes e despertava medo imediato. Hoje, essa realidade mudou. O criminoso moderno prefere um computador a uma arma. Prefere uma tela a uma esquina escura. E, principalmente, prefere permanecer invisível.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 deixa essa transformação evidente. O estelionato consolidou definitivamente sua posição como o principal crime patrimonial do país, ultrapassando a impressionante marca de 2,26 milhões de registros. Em apenas sete anos, o crescimento acumulado supera 429%, uma expansão difícil de encontrar em qualquer outro indicador criminal.

Esses números contam uma história que vai muito além das estatísticas. Eles revelam uma mudança profunda na lógica do crime.

O criminoso descobriu que não precisa mais enfrentar a polícia em uma troca de tiros, nem correr o risco de ser reconhecido por uma vítima durante um assalto. Hoje, basta convencer alguém a clicar em um link, instalar um aplicativo, compartilhar um código de autenticação ou acreditar em uma ligação aparentemente legítima.

A violência continua existindo, mas ela passou a ser silenciosa.

Quando alguém perde todas as economias de uma vida para um falso investimento, quando um aposentado entrega seus dados para um golpista que se apresenta como funcionário do banco ou quando uma família descobre que sua identidade foi utilizada para contratar empréstimos, o dano financeiro e emocional pode ser tão devastador quanto muitos crimes considerados tradicionais.

Existe também um aspecto econômico que torna esse modelo extremamente atraente para as organizações criminosas.

O roubo exige logística, armamento, veículos, divisão de tarefas e alto risco de prisão ou morte. Já o estelionato digital pode ser praticado por uma única pessoa, muitas vezes de outro estado ou até de outro país, utilizando equipamentos baratos, redes anônimas e identidades falsas. O retorno financeiro costuma ser elevado e a probabilidade de responsabilização ainda é relativamente baixa.

Em outras palavras, o crime também passou por sua transformação digital.

Enquanto empresas investiram em aplicativos, inteligência artificial e atendimento remoto, o criminoso fez exatamente o mesmo. A diferença é que ele não precisa seguir normas, regulamentações ou limites éticos. Ele testa centenas de golpes diariamente, adapta suas abordagens em poucas horas e aprende rapidamente com cada tentativa frustrada.

Não é coincidência que o estelionato tenha ultrapassado crimes historicamente predominantes no Brasil. O ambiente digital oferece aquilo que toda atividade criminosa procura: escala, velocidade, anonimato e baixo risco.

O próprio perfil da sociedade favorece essa mudança. Nunca estivemos tão conectados. Fazemos pagamentos pelo celular, assinamos contratos eletronicamente, abrimos contas em minutos, investimos sem sair de casa e armazenamos praticamente toda a nossa vida dentro de um smartphone.

A mesma tecnologia que trouxe conveniência também ampliou a superfície de ataque para quem vive de explorar vulnerabilidades humanas.

É importante observar que essa transformação não significa que os roubos e furtos deixaram de existir. O próprio Anuário mostra reduções importantes em diversos indicadores de roubo, enquanto o estelionato segue crescendo de forma consistente.

Isso não representa apenas uma mudança estatística. Representa uma migração estratégica do crime.

O criminoso está fazendo uma escolha racional. Se pode obter mais dinheiro, com menos risco e maior possibilidade de anonimato, por que continuaria preferindo um modelo de atuação que o expõe diretamente às forças de segurança?

Talvez essa seja a principal mensagem escondida por trás dos números do Anuário. Não estamos apenas registrando mais golpes. Estamos assistindo à consolidação de uma nova forma de criminalidade.

A sociedade ainda costuma imaginar o criminoso escondido atrás de um muro ou dentro de um carro roubado. Na prática, ele pode estar atrás de uma tela, utilizando redes sociais, aplicativos de mensagens, inteligência artificial e engenharia social para convencer suas vítimas de que tudo parece legítimo.

O crime continua existindo. Apenas mudou de endereço.

Hoje, ele mora no ambiente digital. E tudo indica que não pretende sair de lá tão cedo.

Bruno Cesar Oliveira

Bruno César Teixeira de Oliveira, com uma carreira sólida na gestão de riscos, compliance e prevenção a fraudes em instituições financeiras.

Bruno César Teixeira de Oliveira, com uma carreira sólida na gestão de riscos, compliance e prevenção a fraudes em instituições financeiras.

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