16 de abril de 2026
Carlos Leão

Envelhecimento é dádiva

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Nada mais legítimo do que amenizar o envelhecer. Nada mais triste do que exagerá-lo.

Gente, eu sou cirurgião plástico há quatro décadas… e confesso: nunca vi tanta gente bonita ficando estranha tão rapidamente.

Já repararam que algumas pessoas estão envelhecendo… ao contrário?

Não no sentido bonito da coisa. No sentido de virar outra pessoa.

De repente você olha para certas celebridades – vamos falar das internacionais e deixar as nossas pra lá, ok? Quando você olha para a estilista italiana Donatella Versace, o ator americano Mickey Rourke ou a socialite suíça Jocelyn Wildenstein, inevitavelmente surge a pergunta: o que aconteceu aqui?

Lábios que parecem boias de piscina.

Maçãs do rosto que desafiam a gravidade.

Testas tão lisas que nem a surpresa consegue passar.

Mas antes que alguém pense que isso é apenas crítica gratuita, deixem-me revelar um pequeno segredo da cirurgia plástica.

Nós, cirurgiões plásticos, não trabalhamos no improviso. Existe matemática, arte, história e proporção por trás de cada decisão.

Essa história começa por volta de 1490, quando Leonardo da Vinci desenhou aquela figura famosa de braços e pernas abertos dentro de um círculo e de um quadrado: o Homem Vitruviano.

O desenho foi inspirado nas ideias do arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio, que acreditava que a beleza humana estava nas proporções perfeitas do corpo.

Mais de cinco séculos depois, nós continuamos usando esse princípio.

Quando planejamos uma cirurgia, começamos marcando aquilo que chamamos de “ponto A”. É o início das proporções de qualquer seguimento corporal. O mapa que orienta tudo que virá depois.

Pronto. Entreguei a rapadura.

A cirurgia plástica séria sempre teve dois compromissos: função e harmonia. Quem procura um cirurgião plástico, na maioria das vezes, não quer virar uma escultura futurista. Quer apenas se sentir bem ao se olhar no espelho. Quer voltar a se reconhecer. Quer se juntar à multidão e não se destacar nela.

Envelhecer muda o rosto. A pele desce, os tecidos cedem, as rugas aparecem. Isso é biologia, não é tragédia.

Aliás, muitas rugas contam histórias lindas. Histórias de risadas, de vida vivida e de batalhas vencidas. Nem todo mundo tem o privilégio de chegar até elas.

O problema não é querer suavizar o tempo. Mesmo porque isso é legítimo.

O problema começa quando o bom senso sai pela porta da frente.

Nos últimos anos surgiu uma epidemia estética chamada harmonização facial. E, infelizmente, muita gente, sem formação adequada, resolveu brincar de escultor de rostos humanos.

O resultado? Faces infladas, bocas exageradas e expressões congeladas. Pessoas únicas passando a parecer… versões genéricas umas das outras.

E aqui vai algo importante: preenchedores, toxina botulínica, lasers, peelings e tecnologias por aquecimento são ferramentas extraordinárias. Em mãos bem treinadas, produzem resultados elegantes, discretos e naturais.

O problema nunca foi a ferramenta.

O problema é quem a usa… e até onde deixa o paciente ir em seus devaneios.

Envelhecer é bonito, gente. É sinal de que a vida aconteceu.

Amenizar rugas, reposicionar tecidos e recuperar harmonia pode ser saudável e maravilhoso — desde que exista uma palavra que anda meio esquecida por aí.

Limite.

Porque, no fim das contas, o objetivo da cirurgia plástica nunca foi criar personagens.

Sempre foi algo muito mais simples:

Ajudar cada pessoa a continuar sendo… ela mesma.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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