
Um raro caso em que o deboche atravessou a avenida e saiu fazendo campanha para o outro lado
Quarta-feira sempre cai o pano.
O Carnaval acaba, o confete varrido denuncia o desengano, e o rei — ainda que fantasiado — volta a ser apenas cidadão. Talvez por isso eu nem quisesse escrever sobre o Carnaval. Fugi dele.
Saí de Belo Horizonte, hoje o divino inferno da folia nacional, e me refugiei em Vitória, a belíssima capital dos capixabas, e discretamente avessa a Momo. Tudo resolvido, até que o WhatsApp apitou.
Veio um texto enviado por minha irmã, assinado por Ricardo Schweitzer, leitura que recomendo sem culpa. Pronto. Estava dada a senha. Era impossível não escrever sobre a aquela escola e aquele enredo que homenageou aquele senhor — a jovem e ainda fedelha Acadêmicos de Niterói, fundada em 2018.
Assisti pelas redes sociais, já que — mistério insondável — minhas TVs não sintonizam aquela emissora oficial do Brasil. Deve ser defeito de fábrica. Uma pena! Em 5K, nas redes sociais, a incredulidade virou constrangimento, e o maior espetáculo da Terra entregou uma das mais estranhas aberrações já paridas por um carnavalesco.
Homenagear brasileiros ilustres é tradição. Presidente em pleno exercício e ano eleitoral, não. Mas o problema maior não foi a homenagem: foi o deboche. O insulto desembrulhado contra família, conservadores, evangélicos, militares, fazendeiros — tudo servido com purpurina e verba pública.
E então surgiu a ala “Neoconservadores em Conserva”. A fantasia “Família em Conserva”: algo velho, vencido, teias e fungos na prateleira da História. Aqui, o tiro saiu pela culatra. A escola não satirizou um comportamento; satirizou uma identidade. Em menos de 24 horas, a trend “família em conserva” tomou as redes.
Famílias, políticos, religiosos, gente da gente — todos orgulhosamente fotografados dentro de latas. A lata virou símbolo. Nova bandeira. Camisa da seleção. Um trunfo político! Um presente embrulhado para 2026.
Nenhuma agência de publicidade inventaria algo tão genial. Aliás, não foi inventado: foi doado. Sem querer, a Acadêmicos de Niterói criou um material de campanha impecável para a direita, com dinheiro público — o que torna tudo ainda mais lírico, mais poético, mais arrebatador. Ao colocar a família brasileira numa lata de deboche, não se satiriza: faz-se campanha para o outro lado.
Nada une mais um povo do que zombar do que ele considera sagrado. Para o conservador, não é o partido nem o candidato: é a família. A esquerda aplaudiu o escárnio.
Em outubro, não faltarão políticos brasileiros em cultos, terreiros, mesquitas ou qualquer altar que professe fé. Muitos estarão ajoelhados em missas, terço na mão, hóstias na boca, recém-convertidos e hipocritamente felizes por terem conhecido o Salvador e, de quebra, O aceitado em suas vidas.
Abriram as latas esperando botulismo. Encontraram milhões de famílias que decidiram que aquelas latas eram, afinal, suas casas felizes.
Resta elogiar o carnavalesco: se estuda Propaganda e Marketing, tirou a maior nota possível na disciplina “O que não fazer em P&M”. Parabéns, amigo! E muito obrigado!

