18 de junho de 2026
Carlos Leão

Abraão, Moisés e Nikolas: três épocas, uma só fé

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Não foi discurso nem palanque. Foi uma estrada. E alguns passos dados com fé fizeram mais barulho do que muitas palavras.

Há momentos na história em que Deus parece preferir o singular ao plural. Não por economia de meios, mas por didática divina. Quando quer ensinar algo grande, Ele escolhe alguém pequeno o suficiente para que fique claro quem está por trás da obra.

Foi assim com Abraão, um homem só, um passo à frente e uma promessa impossível. Foi assim com Moisés, um gaguejante improvável enfrentando o maior império do seu tempo munido apenas de fé, cajado e teimosia santa.

Foi assim com Jesus, um carpinteiro do interior que virou o eixo moral da humanidade. Sempre um. Sempre alguém disposto a se posicionar quando o silêncio parecia mais confortável.

Essa pedagogia divina atravessa os séculos e, curiosamente, reaparece quando o mundo se convence de que não há mais nada a ser feito. Eis que surge um jovem, tênis gastos, estrada longa, celular na mão e uma convicção que não pede licença.

Não veio com exércitos, nem com discursos empolados. Veio andando. Literalmente.

Há algo de profundamente simbólico em um homem que escolhe o chão como tribuna.

Cada quilômetro percorrido não foi apenas distância física, mas uma metáfora incômoda: enquanto muitos permanecem sentados, reclamando do caos com a autoridade de quem não se levanta, há quem prefira o desconforto da caminhada à anestesia da omissão.

Sem precisar nomear inimigos, a jornada expôs contrastes. De um lado, o cansaço resignado de um país que quase desaprendeu a sonhar. Do outro, a insistência quase juvenil de quem se recusa a aceitar que o desalento seja o destino final.

E isso, convenhamos, é perigosíssimo — não para a democracia, como alguns gostam de repetir, mas para o conformismo crônico.

Milhões assistem. Não apenas por curiosidade, mas por reconhecimento. Porque ali não há perfeição, há posicionamento. Não há unanimidade, há coragem. E isso sempre incomoda. Especialmente aqueles que confundem autoridade com intocabilidade e poder com eternidade.

A ironia maior talvez esteja no espanto de alguns diante da reação popular. Como se fé ainda fosse permitida apenas dentro dos templos.

Como se patriotismo tivesse prazo de validade.

Como se esperança precisasse de autorização prévia.

Deus continua escrevendo. E, para desespero dos cínicos, segue usando linhas tortas, gente improvável e caminhos poeirentos. Um jovem, uma estrada, uma atitude.

Às vezes, é tudo o que Ele precisa para lembrar uma nação de que tudo começa com alguém que decidiu não se ajoelhar diante do medo — apenas caminhar com fé.

Que Deus continue lhe abençoando, menino.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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