Berlim – Parte I: O muro

Demorei a escrever sobre Berlim. Não foi à toa, é muita coisa para contar e envolve um tanto de emoção. A Alemanha tem complexa e perturbadora História recente, e sendo Berlim a capital, foi o epicentro.

Resolvi falar sobre Berlim por temas, que serão postados a cada semana. Não sei quantas, mas será a minha visão do que mais me surpreende e intriga após tê-la visitado onze vezes, a primeira em 2000 e as outras ao longo dos últimos dez anos.

Algumas foram como guia dos meus grupos de viagem, mas a maioria foi a passeio com meu marido, que morou na parte ocidental de Berlim no tempo do Muro. Ter o testemunho dele e de fraternos amigos alemães ainda residentes lá tem sido um privilégio para mim, tanto pelos depoimentos do passado como por acompanharmos juntos as transformações na cidade após a reunificação do país. Reunificação esta que aconteceu oficialmente em 3 de outubro de 1990, quase um ano após a queda do Muro, e que é a data comemorada anualmente na Alemanha.

A reunificação foi um projeto difícil, sob todos os aspectos. Foram meses de negociações, inclusive com os países vizinhos, especialmente Inglaterra e França. Foi um processo brutal de reconstrução e melhoria da infraestrutura da ex-Alemanha Oriental, com enorme esforço dos alemães ocidentais, que pagaram durante muitos anos impostos altíssimos para fazer frente a tamanho investimento federal.

Mapa do Muro de Berlim: a linha amarela mostra onde o muro foi construído, para isolar a parte ocidental (capitalista)
da parte oriental da cidade (comunista e afinada com a Rússia) e também do resto da Alemanha Oriental. (Fonte: germany.info)

O muro foi erguido em 1961, muito depois do término da guerra, quando a Alemanha Oriental quis frear a grande migração de seu território para o ocidental. Foi construído sem aviso prévio, numa velocidade impressionante, e tomou os berlinenses e o mundo de surpresa.

Foram 155km de muro que isolaram Berlim Ocidental no meio do território comunista. Foram 28 anos (1961-1989) de famílias e amigos separados, muitos sem qualquer contato, e educados de forma completamente diferente.

A Queda do Muro também foi surpreendente!

Há relatos interessantíssimos da estranheza entre os habitantes dos dois lados do Muro, depois de demolido. Era um convívio novo e em muitas situações, bem difícil.

Lembro-me de entrar no KaDeWe, megaloja de luxo de Berlim Ocidental, e o atendente só falar alemão. Logo minha amiga berlinense ocidental me disse com desdém: “Esse só pode ser do lado de lá”. E na época (2000) já não existia o lado de lá…

Não pretendo discorrer mais sobre a História e sim mostrar os reflexos e marcas da Segunda Guerra e da Guerra Fria na cidade.

Hoje os berlinenses fazem questão de expor essa época tão sombria e dolorosa de várias maneiras, talvez até como uma catarse.

A minha primeira recomendação é conhecer o conjunto “Monumento do Muro de Berlim” e “Topografia do Terror”, na Mitte, que é o centro da cidade, e próximo a vários outros atrativos.

Na foto abaixo o leitor vê os 200 metros do muro original, com um acabamento arredondado no topo. Dá para ver um ônibus amarelo passando por um trecho quebrado. Esse era o muro exterior, e ainda havia uma faixa de terra e outro muro paralelo ao primeiro, que não existe mais. Essa faixa de terra ficou conhecida como “Faixa da Morte” e não carece de explicações.

Monumento do Muro de Berlim: uma visita imprescindível. (Fonte: Mônica Sayão)
O Muro mais de perto. (Fonte: Mônica Sayão)
Exposição externa temporária ao longo do Muro, sobre a ascensão de Hitler ao poder.  Muito interessante! (Fonte: Mônica Sayão)

A Topografia do Terror fica logo ao lado do Muro. O nome é forte mas faz jus ao lugar, porque era nesse grande quarteirão que, entre 1934 e 1945, ficavam a sede da temida Gestapo, da direção da SS e do Gabinete Principal de Segurança do Reich. Ali foi planejado o Holocausto, por exemplo. Hoje esses prédios não existem mais, e sim uma moderna construção baixa onde há exposição permanente das políticas do nazismo, com farta documentação, inclusive sobre perseguição a outras minorias étnicas da Europa.

Topografia do Terror, muito próximo do Muro, é visita esclarecedora.
(Fonte: dw.com/pt-br)

Outra sugestão ainda sobre o Muro, com uma grande pegada artística, chama-se “East Side Gallery” que é a maior galeria a céu aberto do mundo, com 1.300 metros de comprimento, e mais de 100 pinturas originais. Com a queda do Muro, artistas locais e estrangeiros usaram sua superfície para expressar a visão deles sobre esse grande acontecimento.

Minha pintura favorita: finalmente a paz e a união! (Fonte: Mônica Sayão)
Outra que adoro, e faz referência a inúmeras tentativas de fuga através do muro, a maioria delas com morte dos fugitivos. (Fonte: Mônica Sayão)
O Trabant, carro típico da Alemanha Oriental, em fuga para a parte Ocidental.
Sensacional! (Fonte: Mônica Sayão)
Talvez essa seja a pintura mais famosa da East Side Gallery, que retrata o beijo entre Erich Honecker (o primeiro-ministro alemão oriental quando da Queda do Muro)  e Leonid Brezhnev (um dos mais importantes líderes soviéticos).  (Fonte: Mônica Sayão)
O beijo verdadeiro, que inspirou a pintura. (Fonte: pt.babbel.com)

Comecei este post por onde deveria ter terminado. Afinal, cronologicamente, a Queda do Muro foi o último dos eventos. Nazismo e Segunda Guerra vieram antes. Mas como disse no início, o Muro ainda é tangível e muitos de nós assistimos ao vivo na TV à sua derrubada, afinal o ano de 1989 não está tão longe assim.

Há várias sugestões para quem quiser vivenciar o período nazista. Uma que me toca em especial diz respeito à grande queima de livros de autores judeus que aconteceu em maio de 1933. Meses antes, quando Hitler subiu ao poder, Goebbels, seu Ministro da Propaganda, difundiu a ideia da “arte degenerada” que seria contrária aos conceitos nacional-socialistas (nazistas).

Praça onde está o Memorial dos Livros Queimados, em frente aa Faculdade de Direito da Universidade Homboldt. (Fonte: Mônica Sayão)

Na noite de 10 de maio de 1933, soldados, funcionários públicos e estudantes já embuídos do pensamento nazista, roubaram 20 mil livros da Universidade Humbolt e fizeram uma enorme fogueira. Foram queimados livros de autores como Nietszche, Albert Einstein, Karl Marx e Freud, só para citar alguns.

Hoje, na mesma praça da fogueira, que é a Bebelplatz, está a lembrança desse triste acontecimento. Um quadrado rasgado no pavimento da praça, com um vidro fechando-o, só chama a atenção se você já souber da existência dele. Ao chegar próximo e olhar para dentro do buraco, lá embaixo as paredes são recobertas de estantes brancas, vazias. Uma concepção tão simples mas tão impressionante!

Memorial dos Livros Queimados, uma idéia tão simples mas tão forte!
(Fonte: Mônica Sayão)

Berlim é uma cidade de símbolos e são muitos. No antigo bairro judeu de Berlim, que merece um passeio com calma e é hoje um das mais descoladas regiões da cidade, há muita História para ser contada.

Seu cemitério, o mais antigo judeu de Berlim, deve ser visita obrigatória. Hoje nada mais há exceto um bucólico jardim e duas lápides originais que sobreviveram.

Pois é, o cemitério foi fechado em 1827 porque outro maior foi aberto em região próxima. Havia mais de 12 mil judeus enterrados ali.

Em 1943, homens da SS invadiram esse cemitério antigo, desenterraram as ossadas e jogaram futebol com os crânios. Tudo isso assistido por judeus confinados num prédio logo ao lado. Sem maiores comentários…

O que mais emociona é o Memorial ao lado da entrada. As figuras transmitem desalento e desesperança e tudo o mais que quaisquer palavras possam dizer.

Memorial na frente do antigo cemitério judeu. (Fonte: Mônica Sayão)
Expressão dos rostos diz tudo… (Fonte: Mônica Sayão)
Hoje é só um jardim mas chegou a haver 12 mil judeus enterrados aí.
(Fonte: Mônica Sayão)

Em termos de memorial, o que é mais impactante para mim é o Memorial do Holocausto também conhecido como o dos Judeus Mortos da Europa.

Impossível ficar indiferente ao conjunto de pedras negras, de tamanhos diferentes, que se espalham por um grande quarteirão e de muito apelo visual.

É um momento de respeito e introspecção caminhar por suas alas. E como falei dos símbolos da cidade, e que as coisas não são por acaso, o ex-bunker subterrâneo do Hitler era ali perto, a cerca de uns 200 metros. O bunker foi fechado permanentemente e poucos conhecem sua localização.

Memorial dos Judeus Mortos da Europa. (Fonte: Mônica Sayão)

Para terminar vou sugerir que o leitor olhe para o chão quando estiver em Berlim. É isso mesmo, procurem as Pedras do Tropeço, vai valer a pena.

Sosseguem, você não irá tropeçar, só se for na emoção de saber que as plaquinhas douradas chumbadas no piso mostram os endereços onde os judeus moravam na época, com seu nome, ano de nascimento e ano de sua ida para um campo de concentração.

Pedras do Tropeço: um projeto genial. (Fonte: Mônica Sayão)

Entenderam por que demorei a falar sobre Berlim? Não sou judia mas os horrores da guerra, de qualquer guerra e em especial da Segunda, são lembranças muito doídas.

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4 Comentários

  • Avatar
    Leila Vieira , 18 de julho de 2020 @ 14:59

    Berlim, cidade progressista e bastante dinâmica. Visitei duas vezes, a primeira na época do Muro e ficando hospedada na parte oriental, achei triste e melancólica. E na segunda vez há pouco tempo, me fez mudar completamente de opinião, unida e vibrante faz parte da Europa econômicamente bem ativa e resolvida.

    • Mônica Sayão
      Mônica Sayão , 19 de julho de 2020 @ 12:30

      Leila querida,

      Berlim é um exemplo incrível de superação e reconstrução de relações humanas.

      Beijo grande,
      Mônica

  • Avatar
    Marina Sardinha , 18 de julho de 2020 @ 18:10

    Gostei demais. Espero a próxima parte. Que texto emocionante.

  • Mônica Sayão
    Mônica Sayão , 19 de julho de 2020 @ 12:35

    Olá Marina,

    Fico feliz que tenha gostado do post.
    Berlim realmente me emociona! Vivenciar a cidade com quem viveu lá no tempo do muro faz toda diferença.

    Obrigada!
    Abração
    Mônica

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