24 de abril de 2024
Turismo

O Arquipélago de Malta

Vista a partir de Upper Barrak Gardens em Valletta, em direção à outra margem do canal: lá estão Cospicua, Birgu e Senglea, entre outras cidades vizinhas.
(Foto: Mônica Sayão)

• INTRODUÇÃO

Era um desejo antigo conhecer o arquipélago de Malta. Antes de me envolver com a pesquisa sobre o lugar, olhei no mapa e lá estavam as ilhas, tão pequenas, que pareciam perdidas no meio do Mar Mediterrâneo. Como podia ter tanta história e monumentos interessantes? Sem contar com uma costa deslumbrante, o que sempre meus amigos me contavam.

O arquipélago de Malta é composto por 3 ilhas principais – Malta, Gozo e Comino, e outras minúsculas e inabitadas. Malta é a maior e mais importante. Nela está a capital Valletta. Gozo é a segunda ilha em dimensão e população e Comino, a terceira, é bem pequena. Parece inabitada e inóspita, mas lá mora uma família de camponeses que vivem do que cultivam e pescam. O arquipélago tem aproximadamente 430 mil habitantes.

As línguas oficiais são o maltês e o inglês. O italiano também é bastante falado.

As três principais ilhas do arquipélago: a ilha de Malta é a maior e mais importante. (Foto: br.pinterest.com)

• UM POUCO DA HISTÓRIA

A história de Malta era desconhecida para mim. Sabia por alto sobre a Ordem dos Cavaleiros de Malta. E para compreender o povo maltês e poder apreciar todo seu patrimônio, foi muito importante entender seu passado.

Localizada a uns 90km ao sul da Sicília e a uns 280km ao norte da costa da Tunísia, era, desde os primórdios, cobiçada por navegantes do Mar Mediterrâneo por sua localização central nessas rotas comerciais marítimas. Valletta, em especial, por ter uma costa bastante recortada, logo se tornou um porto muito seguro. Fenícios, gregos, cártagos, romanos, bizantinos e árabes a dominaram ao longo do tempo e lá deixaram sua marca.

Localização do arquipélago de Malta no Mar Mediterrâneo. (Foto: www.maltabulb.com)

Fazendo uma breve reconstituição histórica “recente”, é dito que o cristianismo chegou às ilhas por causa do naufrágio do barco de São Paulo, que estava a caminho de Roma, em 60 d.C. Nada pode ser comprovado mas persiste a história dos vários milagres de São Paulo por lá.

Os árabes conquistaram o arquipélago em 870 d.C. e lá permaneceram por mais de 200 anos. A língua maltesa é muito influenciada pela herança árabe, assim como os costumes árabes persistem na sociedade atual, apesar de, atualmente, sua população ser majoritariamente católica (98%).

Depois dos árabes, o arquipélago passou a ser governado pela Sicília.

Agora a parte que mais me interessava: os Cavaleiros de São João ou Cavaleiros Hospitalários. Eles eram uma ordem cristã, fundada no século 11, para proteção e ajuda aos cristãos que iam a Jerusalém. Em 1522 foram expulsos de Rhodes (ilha da Grécia) pelo Império Otomano. Carlos V, rei da Espanha e do Sacro Império Romano Germânico, temendo uma possível invasão otomana em Roma, fez de Malta o lugar para os Cavaleiros se estabelecerem, que naquela época era praticamente desabitada.

Eles fortificaram a ilha, principalmente Valletta, por causa de seu porto, construíram vários hospitais e criaram a famosa cruz de oito pontas, que até hoje é usada como símbolo de organizações de ajuda pelo mundo. Na realidade, os otomanos tentaram invadir Malta em 1565 mas foram derrotados.

Os Cavaleiros ficaram em Malta de 1530 a 1798, período de grande riqueza na região, quando artistas como Caravaggio foram comissionados para embelezar palácios e igrejas. São desse período os principais monumentos, lindamente barrocos.

A famosa e magnífica tela A Decapitação de S. João Batista, do grande pintor Caravaggio, fica na capela principal da co-catedral. (Foto: pt.wikipedia.org)

Em 1798 Napoleão Bonaparte conquistou o arquipélago a caminho do Egito. Diz a história que ele pediu autorização para atracar no porto de Valletta para abastecimento da frota francesa, mas na realidade foi um golpe para tomá-la sem grande esforço.

Os malteses pediram ajuda à Inglaterra e em 1800 os franceses foram expulsos. Os ingleses permaneceram em Malta até 1964, quando o arquipélago se tornou independente. Malta se transformou numa República em 1974 e passou a pertencer à União Europeia em 2004. Em 2008 Malta aderiu à zona do euro.

Ufa! Que breve história, que nada! Mas acho fundamental esta introdução porque quem visita Malta percebe um pouco ou muito de cada povo que ali habitou e como o maltês atual herdou características de cada um deles.

A primeira construção a ser erguida foi o Forte Elmo, em forma de estrela, na entrada do porto. Após a vitória dos Cavaleiros que resistiram à frota otomana por 1 ano, no episódio conhecido como o Cerco de Malta, em 1565, eles receberam muitos recursos das potências europeias para que Valletta fosse construída como cidade fortificada.

A primeira construção feita pelos Cavaleiros de Malta foi o Forte de S. Elmo, no século 16. Vê-se o forte (em amarelo claro) na parte inferior esquerda do mapa, na entrada do porto. Valetta é a área laranja central quadriculada onde a co-catedral foi construída. (Foto: br.pinterest.com)

A Ordem dos Cavaleiros de Malta era composta por 8 grupos de origens distintas: o de Auvergne, o da Provence, o da França, o de Aragão, o de Castela e Portugal, o da Itália, o da Baviera e o da Inglaterra. A cruz de Malta, símbolo dos Cavaleiros, que aparece pela primeira vez em moedas de cobre datadas de 1576, tem 8 pontas que simbolizam as obrigações a serem seguidas pela Ordem, que eram: ter fé, viver na verdade, ser humilde, amar a justiça, ser misericordioso, arrepender-se dos pecados cometidos, ser sincero, e suportar a perseguição.

• O QUE FAZER

1 – A capital Valletta e sua co-catedral:

A capital Valletta é interessantíssima, não só por sua posição geográfica, como pelo acervo arquitetônico fantástico que traduz a diversa ocupação de povos distintos ao longo dos séculos.

Uma das construções mais importantes e mais lindas é a co-catedral de São João, concluída em 1576. Ela é dedicada a São João Batista, o padroeiro da Ordem. Só passou a ser chamada de co-catedral quando, no século 18, passou a ser também a catedral de Mdina, antiga capital de Malta.

For fora ela é austera, erguida com a mesma pedra local usada em todas as construções. Mas seu interior é inesperado e impactante, decorado em estilo barroco!

Anexo à co-catedral há também um museu que vale ser visitado. Entre outros tesouros, há uma expressiva coleção de tapeçarias flamencas.

Co-catedral de São João Batista, em Valletta, com sua fachada bem austera. (Foto: Mônica Sayão)
Detalhe da fachada. (Foto: Mônica Sayão)
Impacto ao entrar na co-catedral de São João! (Foto: Mônica Sayão)
A Cruz de Malta sempre presente, mesmo na ornamentação das paredes da co-catedral.(Foto: Mônica Sayão)
O piso da nave é todo composto por túmulos em mármore dos Cavaleiros mais importantes. Reparem a caveira neste túmulo central. (Foto: Mônica Sayão)

2 – Ainda sobre Valletta:

Valletta fica numa península e por este motivo está rodeada pelo Mar Mediterrâneo que avança e recorta de maneira singular a costa desta parte da ilha de Malta. Hoje tanto a península, como também as porções de terra no entorno, são densamente povoadas e tudo parece uma única e grande cidade. Mas não se enganem: Valletta é somente a parte da península (vejam novamente o mapa antigo), erguida dentro de muralhas ainda existentes. Hoje temos várias cidades ao longo das outras margens dos 2 grandes canais que delimitam Valletta.

Só mesmo com a ajuda de um mapa é que se pode entender porque essa região foi tão cobiçada como um porto perfeito: no meio do Mediterrâneo, controlando a rota leste-oeste do comércio marítimo, e extremamente seguro por sua conformação geográfica.

A entrada do porto vista de Valletta, ainda a partir da Upper Barrak Gardens. (Foto: Mônica Sayão)
Visão da cidade de Cospicua a partir de Valleta. (Foto: Mônica Sayão)
Avenida da República: eixo principal da cidade de Valletta. (Foto: Mônica Sayão)
Ainda a Av. da República, na sua parte mais comercial. (Fonte: Mônica Sayão)
Detalhe da fachada barroca do tempo dos Cavaleiros de Malta. (Foto: Mônica Sayão)
Me apaixonei por esta longa sacada do Palácio Nacional! (Foto: Mônica Sayão)

A praça principal de Valletta é a de St. George, onde fica o Palácio Nacional (Palácio da Presidência), antiga residência de um Grão-Duque da Ordem dos Cavaleiros de Malta.

Ao lado da praça de St. George, há outra praça super charmosa, a da República, com a Biblioteca Nacional ao fundo à esquerda e muitas mesas para uma sempre merecida pausa.

Vocês já devem ter reparado nas fotos a quantidade de sacadas fechadas. Elas estão por toda parte de Malta, certamente uma herança do mundo árabe, só que com outra estética. Em Valletta elas são sempre pintadas na cor verde. Em outras cidades são coloridas.

Em Valletta o programa é caminhar pelo centro histórico, prestando bastante atenção à arquitetura em geral e aos monumentos em particular.

Praça de St. George com outra fachada do Palácio Nacional. (Foto: Mônica Sayão)
Praça da República: lugar ótimo de descanso, contemplação e de algumas comidinhas para saciar a fome. (Foto: Mônica Sayão)

3 – Saint Julian’s:

St. Julian’s está localizada ao norte de Valletta. É outra cidade, mas como disse anteriormente, as cidades no entorno da capital Valletta mais parecem bairros, mas não são.

St. Julian’s é um charme, e onde se concentram restaurantes, cafés, discotecas e a maior parte dos hotéis. A vida noturna lá é bem agitada, avançando pela madrugada.

Baía de St. Julian, na ilha de Malta: vi pedestres tirarem a roupa e mergulharem na água.Pelo tempo que permaneceram, a temperatura da água devia estar ótima!
(Foto: Mônica Sayão)
St. Julian’s: muitos hotéis à beira mar. (Foto: Mônica Sayão)

4 – Mdina, a antiga capital:

Mdina foi a capital de Malta até o século XIV, quando foi transferida para Valletta, com a chegada da Ordem dos Cavaleiros. Sua história é muito mais antiga que a de Valletta assim como suas muralhas, também ainda existentes. Localiza-se no interior da ilha de Malta e é conhecida como a “Cidade Silenciosa”, já que carros não podem circular intramuros. Realmente é muito quieta, mesmo de dia. Suas ruas são bem medievais, muito estreitas, as construções com poucas janelas, tudo muito interessante.

Portão de Mdina, entrada principal da cidade medieval murada. (Foto: Mônica Sayão)
Pelas ruelas medievais de Mdina. (Foto: Mônica Sayão)
Em Mdina, as sacadas podem ser coloridas. (Foto: Mônica Sayão)
E portas também… (Foto: Mônica Sayão)

5 – A linda costa do arquipélago:

Para terminar, como não falar da linda costa do arquipélago?

Seja na ilha de Malta, assim como em Gozo e Comino, o mar é sempre destaque. É muito limpo e tem variados tons de azul, sempre lindo.

Malta é uma experiência única. Um desses lugares que a gente deve visitar pelo menos uma vez na vida. Mistura de acervo histórico e natureza, com um povo intrigantemente diferente. Recomendo!

A ilha de Comino, que só é habitada por uma família de camponeses. (Foto: Mônica Sayão)
Um zoom na costa de Comino, onde os barcos fazem parada por causa do mar turquesa. (Foto: Mônica Sayão)
A famosa Janela Azul, formação rochosa na costa da ilha de Gozo, um dos mais famosos atrativos naturais de Malta, que foi destruído por uma tempestade em 2017.
Dei sorte de ter visitado antes… (Foto: Mônica Sayão)
O litoral da ilha de Gozo é impactante! (Foto: Mônica Sayão)

• HOSPEDAGEM

Recomendo hospedagem em St. Julian por ser a cidade mais animada da ilha de Malta.

Hotel Juliani – hotel 4 *. Clique aqui para mais detalhes.

Mercure St. Julian’s – hotel 4*. Clique aqui para mais detalhes.

Hotel Valentina – hotel 3*. Clique aqui para mais detalhes.

• COMO CHEGAR

Há vários vôos diários que saem das principais capitais europeias e chegam à ilha de Malta, principalmente no verão. Se você estiver na Sicília o voo dura 30 mim. Há também ferries da Sicília até Malta, mas duram quase 2h.

Para se chegar às ilhas de Comino e Gozo, que valem demais ser visitadas, há um sistema de ferries muito eficiente e confortável, a partir do Porto de Cirkewwa, na ilha de Malta. Ingressos para o ferry devem ser comprados com antecedência.

• QUANDO IR

A melhor época vai da segunda quinzena de maio até a primeira quinzena de outubro. É bom evitar agosto que é o mês de férias da maioria dos europeus.

Mônica Sayão

“Arquiteta de formação e de ofício por muitos anos, desde 2007 resolveu mudar de profissão. Desde então trabalha com turismo, elaborando roteiros e acompanhando pequenos grupos ao exterior. Descobriu que essa é sua vocação maior.”

“Arquiteta de formação e de ofício por muitos anos, desde 2007 resolveu mudar de profissão. Desde então trabalha com turismo, elaborando roteiros e acompanhando pequenos grupos ao exterior. Descobriu que essa é sua vocação maior.”

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