Onde você estava quando a poesia se apagou?

Dizem que perfume e música são inesquecíveis e mais, tornam alguns momentos inolvidáveis. E é verdade.
Certas datas grudam na memória, como chicletes na Cruz; nascimentos e mortes.
Rimando com Machado de Assis, “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Então, infelizmente, as mortes me são mais marcantes.
Tu sabes “Onde Estavas Quando as Luzes se Apagaram?”, naquele filme de 1968, com Dóris? Não! Misericórdia! Não estou falando do João Dória, mas da Dóris Day. Quero nem imaginar ficar no escuro com Dória. Prefiro 1069 vezes ser passageiro no Andrea Doria, em 1956.
Minha primeira morte, meu primeiro cadáver (pelo menos o primeiro que vi em um caixão) foi o de minha avó Adylles, mãe de meu pai, em Barbacena. Estávamos na sala de nossa segunda casa, em Campinas, rua dos Bandeirantes, bairro Cambuí. Era 11 de setembro de 1973 e pela TV, acompanhávamos o suicídio de Salvador Allende, no Chile. Meu pai, arrasado com a morte da mãe, preocupado com a longa viagem de Campinas à Barbacena, com minha mãe e meus quatro irmãos, ao saber de Allende, soltou essa: “Até que enfim uma boa notícia!”.
Dia 11 de setembro de 1973, eu tinha 11 anos de idade. Meu pai, 50.
Não sei o que meu pai falaria dia 10 de dezembro de 2006, quando Augusto Pinochet, também no Chile, morreu. Impossível saber o que diria porque meu pai morreu cinco anos antes. Em compensação, não me lembro onde estava quando Pinochet passou desta para melhor ou pior.
Dia 11 de abril de 2001, quando soube da morte de meu pai, em Barbacena, eu estava em BH, dormindo. Ele morreu à meia noite e eu estava numa festa, na boate Na Sala, preparando-me para passar a Páscoa com ele. Páscoa que nunca existiu para sempre.
Exatamente cinco meses depois da morte de meu pai, eu estava trabalhando, na rua Paraíba, Savassi, quando vi o World Trade Center virar Osama bin Laden.
Mas embarquemos no Túnel do Tempo.
Sei exatamente onde eu estava – na sala de minha terceira e última casa, em Campinas, SP – dia 8 de dezembro de 1980, quando John Lennon foi assassinado. Logo John, que nasceu 20 anos antes de mim, mas num mesmo 9 de outubro.
9 de outubro! Quando eu festejava meus primeiros cinco anos, morria na Bolívia, em 1967, Che Guevara! 11 anos depois, no mesmo dia, quando eu soprava 16 velinhas, morria na França, meu belga favorito, Jacques Brel. Detalhe em 67 eu não sabia quem era Che Guevara e em 1978, nunca tinha ouvido cantar, nem falar em Jacques Brel.
No mesmo 8 de dezembro de Lennon, mas de 1994, morria, em Nova York, bem longe de seu botânico jardim, no Rio, Tom Jobim. E também sei onde eu estava, atravessando o Atlântico, em um avião da Alitalia, voltando para Paris, via Roma.
Voltemos à década de 80 e Paris, “please”. Dia 19 de janeiro de 1982, quando Elis Regina morreu eu estava, pela primeira vez, em Paris. Li no “Le Monde”, um “quadradinho” contando que a maior cantora brasileira tinha morrido.
Voltemos ao mesmo 1994 de Tom Jobim, à mesma Paris de Elis. Dia 1º de maio, quando Ayrton Senna explodiu a cabeça num muro, eu estava na casa de um amigo francês, Nicolas, tomando todas, com a TV ligada no Grande Prêmio de San Marino, em Imola, Bolonha, Itália de novo.
Voltemos à Campinas. Mudamo-nos de lá para Minas, no final de 1984. Minha família foi para Barbacena e eu continuar os estudos em BH.
Em março, eu conhecia ninguém na cidade. Mas dia 21 de abril de 1985, quando Tancredo Neves “provou que era bom de urna”, estava no meu apartamento da rua Timbiras, com “Júnia” de Campinas. Na verdade o nome dela era Maria do Carmo, mas ela odiava…
Estávamos tão pelados e ocupados com doces pecados, que só fiquei sabendo de Tancredo, um dia depois, com amigos, na piscina da Sylvia Luiza, em Barbacena, quando vimos e ouvimos vários aviões descendo em Barbacena, para os funerais em São João Del Rey, que não tinha aeroporto.
O Cláudio Marzo? Sinistra memória porque quase fui junto. Dia 22 de março de 2015, eu estava no hospital Life Center, em BH, depois de dois meses no CTI, uma pneumonia e outra tuberculose. Não era essa gripezinha de hoje não…
Por falar nisso, tenho a mínima ideia de onde estava ou o que fazia dia 18 de janeiro de 2002, quando o bandido da luz vermelha mandou matar o Celso Daniel. Mas dia 6 de setembro de 2018, quando os mesmos bandidos vermelhos mandaram Adélio esfaquear meu querido Bolsonaro, em Juiz de Fora, eu estava bem perto, em Barbacena, assistindo, no Arte1, “Coco Chanel & Igor Stravinsky”. Igor, de quem sou um sósia, infelizmente, apenas fisicamente e quando jovem. Até hoje não vi o final do filme, mas ele come ela…

Bom, tem ainda o Yves Montand, o Serge Gainsbourg, etc., mas melhor parar por aqui, porque são infinitos os Cadáveres Ilustres, como diria o menos ilustre, Francesco Rosi.
Na partida do bêbado e equilibrista Aldir Blanc, dia 4 de maio, estava aqui, de volta ao involuntário exílio, em Barbacena.
Ops! Dia 6 de julho daquele saudoso 2019, quando João Gilberto escafedeu-se, encontrava-me no Buritis, BH, na casa do Tavinho, na nossa festa de 30 anos de formatura em Jornalismo.
Dia 6, deste 2020, quero nem lembrar! Ciao bello, Ennio Morricone.
E para esnobar, quando Chico Anysio (23 de março) e Millôr Fernandes (27 de março) morreram, nem fiquei sabendo, mas sei o ano, porque estava em Nova York, pela primeira e única vez.
O que eu fazia dia 10 de janeiro de 2016, quando David Bowie picou a mula? Um quilo de coisas. Eu acabara de chegar em Lisboa, vindo de…………. Paris, claro! Foram minhas últimas férias decentes.
Era uma tarde muito fria e cinzenta. Mesmo assim, deixei minha bela adormecida no apartamento alugado no Bairro Alto e, à pé, fui até a deliciosa avenida da Liberdade, a Champs-Elysées de Lisboa. Sentei-me numa tasca, no meio da avenida e, acompanhando um jogo de futebol do campeonato português, entornei duas garrafas de vinho tinto.
Depois abasteci-me com outras tantas num supermercado e voltei para o apartamento, de táxi, claro.
Lá chegando, ligo a TV e bye-bye Bowie! Passei a noite e a madrugada ao som de vinhos e bebendo clipes do David, num canal a cabo e inglês.
Pronto! Todo este obituário, repleto de doces lembranças ou nem tão suculentas, para dizer que meus ídolos ainda são os mesmos e estão mais para lá do que para cá. E também para chegar ao dia de hoje, 9, não de outubro, mas de julho de 2000 e Covid-20.
Onde vocês estavam, dia 9 de julho de 1980, quando Vinicius de Moraes morria de amores?
Eu sei onde estava, há exatos 40 anos. Num show aberto do Belchior, no Centro de Convivência Cultural Carlos Gomes, em Campinas. Uma arena ao ar livre.
Fazia muito frio, claro, mas eu tinha 17 anos e todo o tempo do mundo. Belchior abriu o show dedicando-o a Vinicius.
Eu ia contar minhas histórias com o poeta, mas este texto já está muito grande e Vinicius merece nada às pressas.
Todavia, se desenterrei até minha avó, para chegar a ele, sabem o que isso significa.

PS: “…Eu morro ontem/Nasço amanhã/Ando onde há espaço/Meu tempo é quando”.

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