
Números!
Imaginei Lô Borges, em sinistra matemática, viajando na batatinha: “Nasci em 1952, então vou morrer em 2025 porque, afinal, 52 com 25 é um tipo de anagrama”. Sendo assim, como nasci em 62, vou morrer ano que vem, em 2026? E todo mundo achando que o Milton, 10 anos mais velho que Lô e 20 mais que eu, partiria antes, ano passado, já que ele é de 1942…
Não adianta ficar adiando e pensando bobagens. Preciso escrever sobre Lô. Preciso não, quero. Porque assim como tenho pena de quem não fala francês, principalmente estando em Paris, tenho Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si de quem não nasceu em Minas.
Falo por mim, mineiro fajuto, eterno aprendiz de Minas. Muita gente sabe que apenas fui inaugurado em Minas, Barbacena. Cresci em Campinas, São Paulo, que é o avesso do inverso do avesso.
Em Minas a gente fala “amigo oculto” e em São Paulo, “amigo invisível”. Ou seria o contrário? Em 1981, na mesma Campinas, em festa de fim de ano, ganhei da amiga Alexandra Scarpelli, (Por onde andará? Nunca mais vi!), um disco, vinil, em brilhante embalagem de papel preto, com um laço dourado. Ela disse: “Espero que goste, é música lá da tua terra…”.
Quando abri, fiquei com cara de brasileiro. Quem era Beto Guedes?
O disco, “Contos da Lua Vaga”, foi meu batismo no Clube da Esquina. Eu já conhecia Milton Nascimento, cantando “O que será”, com Chico Buarque, em 1976.
Gostei tanto do Beto Guedes que comecei a comprar outros discos dele e até Lô Borges, foi um pequeno pulo, mas um grande salto no abismo. Comprei tudo, decorei tudo, mas continuava entendendo nada. Eletrochoque de página do relâmpago elétrico. Que música estranha era aquela? De onde vinha? Para onde vai? E é bom lá?
Descobri lua e vagamente BH, em 1982, convidado pelo amigo Maurício Campos, que conheci em Paris, num intercâmbio, no mesmo ano. Descobri mais ou menos. Fiquei uns quatro dias e ele me brindou com noturnas voltas pela cidade. Coisa de turista acidental. Gostei! Sou urbanoide, aprecio asfalto e prédios. Voltei para Campinas e daqui a pouco volto ao Maurício com Lô.
Começar a entender BH, mesmo, só três anos depois, ao me mudar para BH, pela primeira vez. E foi sem querer. Eu morava no Centro e de repente liguei o filme à trilha sonora. Centro, Floresta, Santa Tereza… Até a Savassi tinha cheiro de Clube da Esquina.
Os prédios, as pessoas, uma decadência com elegância, muita cerveja gelada e moças quentes. Gostei, viciei, fiz minha inscrição no clube. 40 anos depois ainda espero o convite para entrar. 40 anos depois, morre o Lô.
Lô foi-se e “foice” na noite do Dia dos mortos e será velado no dia 3, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, onde, há exatos 2,5 anos, tenho o orgulho, a honra e o prazer de trabalhar. E olha que, com prazer é mais caro, como diz meu gafanhoto, Luiz Fernando Grillo.
Foi no Palácio das Artes que ouvi e vi Lô Borges pela primeira vez. Pela última também e há pouco tempo, em novembro do ano passado, com “a” Andréa Savassi, que “desconheci” em Paris. Vi vivo claro. Por isso, vou terminar este texto amanhã, dia 4, depois do velório.
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Pronto! E lá se foi mais um dia! Hoje já é o dia seguinte, quase 23h, muitas horas depois do velório, que foi assim.
Cheguei ao Palácio das Artes, às 9h, onde já tinha fila de público e imprensa. Peguei o atalho dos funcionários e, minutos depois estava com Lô. Abriram a “porteira” e começou a romaria. Lô continuava com aquela cara de menino de 73 anos. Uma blusa preta, mangas compridas, mãos tipicamente sobrepostas. Mãos de violão, piano e copos, ali paradas, quase cruzadas. A ficha começou a desmoronar.
Por coincidência e sem combinar, coloquei na plateia, primeiro Andréa, depois Maurício. Chego onde planejei, guardei e queria. Com Andréa vi, talvez, o último show de Lô, sempre no Palácio das Artes, quase um ano antes, dia 9 de novembro de 2024. Com Maurício, vi Lô, em 2020, cantando para ele, em sua casa, no seu aniversário de 55 anos. Os dois amam Lô. E eu sigo os relatores.
Ops! Acabei de esmagar uma barata aqui ao lado, mas já limpei, com álcool e etc.
E antes que este texto vá para a Terra de Gigantes, mesmo falando de um deles, aviso às minhas idolatradas e adoráveis canalhas: não vou citar músicas, pedir esmola com o chapéu do Lô. Muito menos escrever que ele regeu a trilha sonora de minha vida. Gatos têm sete trilhas sonoras, mas…
Quando cheguei ao Palácio do Lô e dirigi-me ao Foyer, local do velório, de uma das 1001 salas locais; escutei alguém ouvindo exatamente estes versos: “…
Conheci as torres e os cemitérios. Conheci os homens e os seus velórios…”. A mesma paisagem, da mesma janela que, mais tarde, presenciei amigos e público entoando ao fechar do caixão.
Lô está muito além deste jardim de girassóis, margaridas e crisântemos de caixão. Ele está aqui, agora, cantando no meu computador, mais vivo que nunca. Como está, para sempre, no último CD do mestre maior, Tom Jobim, com “O Trem Azul”, em português e em “Blue Train”, em francês, perdão, inglês. Confundi porque este caso é outro enorme, acontecido na Paris de 1994, que agora não cabe aqui.
Pouca merda não, seus filisteus! Tom Jobim! Aprendiz e fã de Villa Lobos, aquele outro Einstein, de outro trenzinho de doido, o caipira…
Pausa para cheirar um pouco daquele gás lacrimogêneo pra ficar calmo, calmo, calmo…
Chega! Lô, teus demônios são anjos de cara suja, mas anjos que já se borram de medo da concorrência do Milton, o aluno que virou professor deles cantando tua música.
Você é um Bach de bermuda, o lado feliz e pop de Händel. Que me perdoem os outros sócios do clube, como Ringo e George, mas se o Milton é o John, você é o Paul.
Não tive a sorte de apertar tua mão enquanto quente. Mas tem nada não. O céu pode desesperar. Só vou te contar mais uma coisa, que talvez não tenha visto. Na tua saideira, tinha muita gente famosa, teus amigos, de Toninho Horta para cima ou para baixo.
Bom mesmo foi ver, durante seis horas, milhares de órfãos te olhando de longe, despedindo de perto. O que quem sabe isso quer dizer? Amor, pô!
P.S.: Uma coisa eu sei. Nada será como antes e, principalmente, depois de você.
Walter Navarro, Belo Horizonte, 3/4 de novembro de 2025.

