Na Savassi, de cor e salto alto


Waltinho flanava pela Savassi; serelepe, audaz, lépido e fagueiro, quando dá, de cara e coragem, com o amigo Raul Abujamra e suas cãs, tomando impunemente sua cervejinha vespertina, no Bar do Gil, ali na rua Fernandes Tourinho com Pernambuco.
Sabem quem foi Fernandes Tourinho? Não, não foi mais um inconfidente, destes que inundam as ruas de Belo Horizonte. Muito pelo contrário.
Sebastião Fernandes Tourinho foi um bandeirante português imperialista, colonialista, fascista, que desbravou Minas; mais um caçador de esmeraldas frustrado, descobridor de ouro de tolo.
Copacabana é bacana, mas te engana.
Por falar em bandeirantes, só pra chatear, sabiam que a famosa comida mineira é paulista? Chegou aqui, salgada, em lombo de burro, com os bandeirantes. Mineiro é tudo filho de paulista português e escravos africanos. Você vai ao interior de São Paulo e toda a culinária mineira está lá, com outros nomes. Digo interior porque, na capital, ela foi considerada comida de quinta categoria, depois que muitos paulistanos trouxeram hábitos e gostos europeus…
Mas voltemos à Savassi e ao Raul, porque hoje quero falar de Moda.
Raul é um petista civilizado, mas ainda não totalmente domesticado, amestrado. Gente fina e sangue bom. Dono de boa tertúlia. Morou na Colômbia! Que falta de absurdo!
Ficamos lá tomando um Toddynho de Lula e Tim Maia, dois mentirosos…
Como não sou cego, pratiquei meu esporte favorito: admirar e aplaudir as mulheres mais lindas e cheias de graça, que vêm e que vão, num doce balanço, a caminho de outro bar, outras camas, que não a minha, buá buá buá.
Juro, quando na Savassi, desce o Vinicius de Moraes que mora em mim desde 1938, no Rio de Janeiro e declamo para gáudio da plateia: “Meu Deus, eu quero a mulher que passa. Seu dorso frio é um campo de lírios. Tem sete cores nos seus cabelos, sete esperanças na boca fresca! Oh! como és linda, mulher que passas, que me sacias e suplicias, dentro das noites, dentro dos dias!”.
Babando, passo a Chico Buarque, no mesmo Rio, mas anos 70: “Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar… Tô me guardando pra quando o carnaval chegar. Há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá… Tô me guardando pra quando o carnaval chegar…”. E olha que nem gosto de carnaval.
Hoje, se eu chamar a mulher que passa de linda; se elogiar as pernas de louça da moça, sou preso em flagrante por assédio sexual.
Na Savassi, de cor e salto alto!
Saber de cor, quer dizer saber de coração… Os antigos achavam que a memória residia, sem pagar aluguel, no coração. Bonito, né?
Aí, para sorte de psicólogas, de terapeutas e psiquiatras, descobriram que a memória paga caro pra viver na cobertura, na cabeça, com vista para o mar de lembranças, saudades e problemas.
Salteado é saber até mesmo fora de ordem.
Mas cadê a Moda prometida nesta história toda?
Está justamente nas pernas da moça que passa.
Passou uma que me deu vontade de laçar e lascar…
Mas o salto dela era tão alto, deslizando pelas pedras portuguesas, que até perdeu um pouco, só um pouco da graça. Parecia aleijada, parecia mancar. Quase caindo.
Mulheres lindas! Vocês pagam um preço muito alto pela elegância que acaba fugindo pelos pés.
Salto alto tem hora e chão, calçada. Já vi lindos espécimes de salto alto equilibrando-se sobre as pedras de Ouro Preto e Tiradentes! Uma gafe, um perigo.
Logo depois, passou outra, ainda mais suculenta, mas de tênis. Perdeu nada em graça e estilo.
E eu lá amando, venerando, idolatrando, com uma perplexidade de criança e os olhos de um bandido; os olhos de um engraxate procurando sapatos entre mesas; os olhos de um mendigo que pede e só vê as mãos de quem dá. Ou não.
Mais Moda?
OK! Este calor primaveril confere outro charme às moças e mulheres da Savassi: todas sem sutiã. Anistia ampla, geral e irrestrita.
Com meu humilde olhar de supremo tarado, continuo lá, a ver navios e todas as formas de pera, pitomba, melão, sorvete, picolé e quero mais.
PS: Tomará que Raul e a Savassi estejam lá, amanhã e sempre.

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