Ma Dame, Notre Drame


Vou tentar deixar o “drama” só no título desta crônica.

Durante cinco horas, vendo a Notre-Dame de Paris derreter, fiquei muito puto, muito triste.
Se a catedral tem quase 900 anos, tenho algumas horas dentro e fora dela. Sempre que passava em frente, eu entrava. Menos quando via aquelas filas insanas, como as do Louvre, aos domingos, quando a entrada no museu é livre.
Confesso que nunca entrei lá para rezar, mas para admirar a obra de arte, as obras de arte.
Quando vi as chamas tentando destruir a História, me deu vontade de ser o beija-flor daquela fábula; o beija-flor que tenta apagar o fogo da floresta, levando água do rio no bico, enquanto os outros bichos riem de seu inútil esforço. Ele responde que estava fazendo a parte dele…
Já estou sendo dramático, mas daqui a pouco paro, juro.
Na minha impotência, podendo jogar nem um copo de água na catedral, ouvi na TV francesa, o “recteur-archiprêtre” da Notre-Dame desabafando; ele queria perguntar a Deus como permitiu tal tragédia. E completou dizendo que só teria a resposta quando fosse para o céu.
Pensei no Beto Guedes.
Quando John Lennon foi assassinado, Beto Guedes compôs “Canção do Novo Mundo”, perguntando: “Quem souber dizer a exata explicação, me diz como pode acontecer, um simples canalha mata um rei, em menos de um segundo. Oh! Minha estrela amiga, por que você não fez a bala parar”?
Pensei em perguntar a Deus, por que ele não apagou a primeira fagulha, a primeira chama e aqui acaba o drama, porque me lembrei de três gênios.
As estrelas e Deus têm nada a ver com isso.
O cantor e compositor belga, Jacques Brël, tinha certeza que os verdadeiros Deuses eram os próprios homens. Afinal, é o homem que inventa seus deuses.
Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: “Acredito no Deus de Spinoza que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe e não no Deus que se interessa em premiar ou castigar os homens”.
E quem era o Deus de Spinoza ou Deus segundo Spinoza?
Com a palavra, Baruch Spinoza, filósofo holandês do Século 17: “Para de ficar rezando e batendo no peito. O que eu quero que faças é que saias pelo mundo, desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti. Para de ir a estes templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construístes e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nas praias”.
Deve ser por isso que nunca rezei na Notre-Dame. Mesmo linda, por fora e por dentro, ela É sim meio lúgubre, obscura e fria.
Aí, o presidente francês, Emmanuel Macron, na mesma TV, ao vivo, garantiu que ele, os franceses e o mundo vão reconstruir Notre-Dame de Paris.
Tenho certeza e vamos lá!
Sou suspeito, mas afirmo que se a França é péssima em guerras, apesar de saber ser violenta, é um país voltado e vocacionado para o amor, a poesia, o lirismo, as artes.
Para mim, engenheiros, arquitetos e paisagistas franceses são os melhores do mundo. Sem citar a moda, culinária, pintura, etc.
Não tenho tempo, nem vontade de fazer a mínima lista para provar isso. Basta citar a Torre Eiffel, Versalhes e… Notre-Dame.
Por isso os nazistas quando invadiram a França e durante quatro anos (1940-44) esbaldaram-se em Paris, têm o ditado: “Estamos felizes como deuses na França”.
Notre-Dame deve sua fama a Victor Hugo e seu Corcunda apaixonado por Esmeralda. Livro que virou filme, desenho animado, musical e contagiou o imaginário do mundo.
Notre-Dame escapou das bombas e horrores de duas guerras mundiais. Salvou-se, com pequenas cicatrizes, da selvageria e barbárie dos imbecis da Revolução Francesa e da Comuna de Paris, que destruíram muita coisa bonita. Por mais que tentem e façam muito estrago, idiotas de todos os tempos não conseguem destruir Paris, nem o Rio de Janeiro.
Notre-Dame deve sua fama a Victor Hugo, mas quem a salvou da destruição, quem a restaurou, foi justamente um arquiteto, Eugène Viollet-le-Duc, em 1843. A “flecha” de 93 metros, a primeira a sucumbir no incêndio deste nefasto 15 de abril de 2019, é obra dele; entre outros 900 mil detalhes da catedral.
Viollet-le-Duc salvou infinitos castelos e catedrais da França, sob Napoleão III, um injustiçado, muito melhor que seu famoso tio, Bonaparte.
Paris é a cidade mais linda do mundo graças a Viollet-le-Duc, Napoleão III e outro “arquiteto”, outro Eugène, o urbanista Georges-Eugène Haussmann, também a serviço do imperador.
Para citar apenas uma ideia genial de Haussmann, a criação dos “boulevards”.
Por isso e como prometido, sem dramas, Notre-Dame morreu, Viva Notre-Dame!
Vai demorar décadas, talvez eu não a veja mais, como vi tantas vezes, mas ela vai voltar mais imponente que nunca.
Outras catedrais, depois de outras tragédias ressurgiram das cinzas. Lisboa foi devastada por um terremoto em 1755 e, hoje, nem se percebe, de tão linda.
O bilionário francês, François-Henri Pinault, já prometeu doar 100 milhões de euros para a reconstrução.
Com dinheiro, engenho e arte; voluntários e amor ao patrimônio, “vamos” ressuscitar, “ao terceiro dia”, a catedral Notre-Dame de Paris e do mundo inteiro. Por falar em ressurreição, a Semana Santa está aí para garantir e não me deixar mentir.
E não à toa, o Marco Zero da França fica bem em frente à Notre-Dame.
PS: Se eu quiser fazer perguntas a Deus, ainda tenho o colo das mulheres, minha casa, as montanhas, os bosques, os rios, as praias, os mares, os bares e claro, a igreja de Saint-Germain-des-Prés, pertinho da Notre-Dame.

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