23 de maio de 2022
Walter Navarro

Grãos de Sumatra e Especiarias do Eufrates


Além do Sentido da Vida, da Física Quântica e de gente que paga para ver e ouvir Sandy & Jr., só não consigo entender uma coisa: a casca de certas jabuticabas.
Você morde de um lado, ela estoura do outro. E olha que já chupei muitas!
Definitivamente, corroído pelo dúvida atroz, não sei se preciso afiar os grandes dentes da frente ou se, realmente, as jabuticabas têm um lado mais fino que o outro.
Outra hipótese é a famosa Lei de Murphy, a qual obedeço religiosamente: se uma coisa pode dar errado, por que raios daria certo?
Consultei até o sábio astrônomo de Walt Whitman e nada! Pissirongas!
Hoje, por exemplo. Caminhada de 30 minutos, sob calor panamenho; depois, banho à guisa de lavar as joias da família, o conjunto da obra.
Para não sujar minha única calça, aproveitei a nudez que pode ser castigada para degustar um pote de 103g, desta doce fruta da família das mirtáceas, nativa da Mata Atlântica.
Eu & Murphy, claro, porque comecei pegando uma podre, avinagrada, daquelas que me pulsam a fazer vasectomia.
Na quarta jabuticaba, o esperado! Chupo de um lado, escapa um jato de outro, pingando em meu joelho e outra anatomia, aqui, inominável.
No fim do pote, o lado sul de meu estonteante corpo parecia mais um pote de geleia.
Fui à pia, dar uma geral.
Molho a mão direita, a Santa Mão Direita, levanto o joelho esquerdo próximo à torneira e começo a faxina. Depois inverti tudo, mas já era tarde…
Ao olhar para baixo, o chão ensopado: O que fazer? Secar, claro. Com papel higiênico, ainda mais claro! Uns bons três metros dariam para o gasto.
Mas atenção! Sem desperdício. Depois reciclo o papel. É simples, quando se sabe…
Em vez de dar uma mãozinha, Murphy fez com que, de joelhos, eu batesse minha privilegiada cabeça na maçaneta do armário sob a pia.
Pelas Barbas de Netuno! Xinguei palavrões de envergonhar o Kama Sutra.
Por falar nisso, conhecem a posição Helicóptero Sueco? E Folhinha Verde?
Bom, como diria Tancredo na suruba: “Não nos dispersemos…”.
A pancada foi tão forte que rompi os dois supercílios e o nariz. Fiquei a cara da Julia Roberts. Não, do Robert de Niro, em “Touro Indomável”.
O sangue jorrava mais que petróleo de filme de James Dean…
O banheiro virou cenário de Tarantino. Um horror!
Mil Dráculas, vampiras sedentas e tubarões malvados, sentindo o ouro vermelho, tentaram entrar pelo basculante e pelos ralos, mas fui mais rápido e eles ficaram só cheiro, só no gostinho, só no sapatinho.
Cambaleando tal qual um bêbado equilibrista, fui até a cozinha. Peguei um iceberg, enfiei num saco de lixo 100 litros e botei no rosto, ou na cara, não me lembro mais. O resto do gelo siberiano, aproveitei para o whisky.
E fiquei ali na sofrência, delirando; imaginando Haddad presidente, o Galo campeão brasileiro e o 14º salário.
Caí em mim.
Lembrei-me até da semana que passei no Tchad, trocando mulheres com os beduínos do deserto.
Sou alucinado com desertos, vulcões e pântanos, mas não queiram saber sobre o capítulo higiene pessoal.
E nunca bebi tanto chá na vida.
Vai gostar de chá assim lá no Saara!
É chá pra cá, chá pra lá. Vinho que é bom nada.
Mas o que não faço para penetrar os meandros e as culturas mais virgens do Planeta!
Como todos sabem, meus amigos Gorane são nômades. Vivem onde a comida está, mesmo que longe dos raríssimos poços de água.
A cada quatro dias, levávamos um dia inteiro para encher toda sorte vasilhames. Dormíamos sob as estrelas que, além de teto, eram também nossa bússola.
E os camelos?
Mas isso é outra história.
PS: De onde vêm as caixas de papelão para guardar os pertences de quem é demitido nos filmes americanos?

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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