24 de maio de 2022
Walter Navarro

E se a formiga for um Deus?


O governador de Minas, Romeu Zema, é um cara educado e gentil. Recentemente, entrevistado por meu primo Paulo, respondeu sobre a Herança Maldita que recebemos.
Não citou nominalmente o ex governador petista, Fernando Pimentel, mas alfinetou de leve: “Ainda estamos arrumando a casa, sem dinheiro, mas com muito trabalho; limpando a sujeira, (casa) cheia de formigas e baratas”.
Eu teria aumentado o acervo do pernicioso zoológico. Além das formigas (saúvas vermelhas) e baratas, a casa herdada por nós está infestada por escorpiões, ratos, ratazanas, cupins e todos os bichos escrotos citados na música dos Titãs, inclusive o Ursinho de Pelúcia, lotado de ácaros carnívoros.
Insisto nas saúvas vermelhas porque equivalem aos gafanhotos, rãs (pererecas), piolhos e moscas das Setes Pragas do Egito. Pensando bem, um chuva de pererecas cairia bem…
“Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. A constatação ou diagnóstico do cientista francês, Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), que sobreviveu ao e no Brasil, estudando as plantas – e formigas – para mim, continua válida, no mínimo como terrível metáfora.
Meu amigo Acílio Lara Resende lembrou Saint-Hilaire, no jornal O Tempo, de Belo Horizonte, em 2017, citando um texto de Fernando Gabeira, “Doenças da carne, doenças da alma”.
Para mim, otimista é uma cara mal informado. Acílio não é uma coisa nem outra, mas discordo dele sobre estas temíveis formigas. Ele escreveu que, “nenhum dos dois – o Brasil ou a saúva – acabou”. E que, “com o tempo, a frase perdeu a força que tinha antes. Hoje, a saúva pode ser enfrentada com êxito e, com certeza, se administrada com competência técnica, já não fará mais nenhum mal às terras e lavouras brasileiras”.
Discordo também de Acílio quando completou: “Em seu sentido metafórico (a frase passou a ser usada contra outros inimigos, como os políticos) também foi desaparecendo. Por cansaço, provavelmente. O mesmo cansaço que hoje vai tomando conta dos melhores de nossa imprensa tanto televisada quanto escrita”.
Para mim, nada mais atual e pertinente que comparar as vermelhas saúvas com o vermelho PT e seus acólitos anticristo
No mais, ainda não descartei o poder destruidor de todas as verdadeiras saúvas e seus bilhares de irmãs, as outras formigas.
Outro francês, Bernard Werber, bem mais recentemente – nasceu em 1961 – levou 12 anos escrevendo seu clássico, “As Formigas” (1991). De remediado, passou a milionário e “pop star”.
Vendeu dois milhões de livros, em mais de 30 línguas, principalmente quando “As Formigas” virou uma trilogia.
A série “combina filosofia, espiritualidade, ficção científica, suspense, ciência, mitologia e consciência”.
Werber escreveu: “Não estamos sós na Terra. Ao nosso lado, a nossos pés, entre nossas casas, vive uma outra civilização. As formigas. Elas estavam sobre Terra (e sob a terra n.d.r.) muito antes que nós. Há mais de 100 milhões de anos, enquanto nossos mais antigos ancestrais só apareceram há três milhões”.
E já ouvi, numa entrevista, Bernard Werber corrigir este número para 120 milhões de anos para as formigas, contra sete para nós…
O livro “As formigas” também já foi classificado como terror. Porque “é uma aventura sombria que narra a história de uma família que tem a paz ameaçada por uma civilização oculta tão inteligente quanto a sua própria – uma colônia de formigas determinadas a sobreviver a qualquer custo”.
O “problema” é que Werber gosta de formigas porque para ele, elas se assemelham, e muito, aos humanos.
E detesto formigas exatamente pelo mesmo motivo. A começar pelas saúvas e suas primas que acabam de devorar uma mudinha de árvore que acabei de plantar no jardim agora, maio/junho de 2019.
Quem já pisou num formigueiro, quem já sofreu doloridas picadas, sabe que não estou mentindo e que elas podem ser muito perigosas.
Picadas de formiga podem curar mas, se alguém se perder na selva amazônica e dormir de cansaço sobre o chão da floresta provavelmente será devorado por elas.
Elas comem e destroem tudo. Ainda neste 2009, invadiram o quarto do meu irmão, ao lado de meu e encheram-no de picadas durante o sono. Acordou de madrugada e teve que promover um massacre entre lençóis e com inseticida no chão.
Dia seguinte, gastei um litro de querosene porque elas estavam, como cupins petistas, comendo a madeira da varanda, sorrateiramente, através de sinistros túneis. Tenho mais dois litros esperando o próximo levante deste tipo de MST.
Devagar, pacientemente, em fila, carregando pedaços bem maiores que elas, podem, numa noite, acabar com as folhas de uma árvore.
Continuemos com Werber: “Pode parecer uma guerra fácil de ser vencida, mas é melhor não subestimar esses seres que medem de 0,01 a 3 centímetros; enquanto a população humana soma cerca de seis bilhões de indivíduos, há por volta um bilhão de bilhões de formigas na Terra…”.
A partir de então, o autor, que por 12 anos estudou a vida desses insetos, alterna as narrativas – que, em certo momento, irão se cruzar – e expõe as semelhanças e diferenças entre essas duas civilizações sofisticadíssimas”.
Formigas podem ser ecológicas, benéficas, suprimindo pragas; arejando o solo, ajudando, involuntariamente, claro, no cultivo de frutas. Como abelhas e pássaros que polinizam.
Formigas servem para controle biológico e até mesmo como suturas cirúrgicas.
Formigas fazem o papel de mocinhas como em desenhos animados e na famosa fábula de Esopo, “A Cigarra e a Formiga”.
Mas não me enganam. Exatamente porque agem como humanos.
Em outras entrevistas com Bernard Werber, descobri que ele tem voz fina, é meio afeminado, elegante, inteligente, culto, adepto da yoga, da meditação, da espiritualidade e que na hipnose, descobriu estar em sua 12ª vida.
Quando descobre formigas em sua cozinha, não as mata. Coloca a comida do lado de fora para elas.
Ele lembra que as formigas, ao contrário de pássaros e gatos não fogem do homem. Que elas não fazem o bem como o mel das abelhas, nem o mal, como os mosquitos da dengue, febre amarela, malária, etc.
Para mim, há controvérsias sobre o mal e o bem nas formigas…
Constroem túneis e cidades…
Segundo Werber, formigas e homens são ainda mais semelhantes no capítulo divisão do trabalho. Ele afirma que a fama da formiga trabalhadora, como na fábula de Esopo, é realmente fábula.
Um terço das formigas, faz porra nenhuma. Outro terço faz coisas inúteis e só incomoda, como os três elefantes da musiquinha. Na verdade, apenas o último terço trabalha e muito, porque faz o trabalho dos dois terços de vagabundos. Bem Brasil, né?
E no entanto, mesmo assim, o formigueiro, com apenas um terço trabalhando em equipe, ação entre amigas; funciona muito bem. Nada Brasil, né?
Ah! A Rainha? Só transa uma vez, põe as formiguinhas no mundo e faz mais nada.
Todavia e cotovia, no meu lado, concordo com Cazuza e Caetano Veloso nesta letra de música bonita: “Ah, esse cara tem me consumido, a mim e a tudo que eu quis, com seus olhinhos infantis, como os olhos de um bandido”.
Crianças como formigas podem ser más e terríveis, bandidas.
Meus olhos e mãos infantis, sem querer, sem pensar, já fizeram muita covardia que o homem Walter não faz mais. Com meu vizinho de infância, em Campinas, Luís Rezende, fritávamos minhocas e formigas em latas de sardinha. Meus olhos de bandido recolhiam certo e mórbido prazer ao vê-las contorcendo-se no calor assassino.
Parei com isso, creio, ao ouvir uma modinha ecológica do Juca Chaves – uma das poucas sérias de sua lavra: “Minha tia disse um dia, que a formiga é diferente, não tem alma, ela é vazia. Alma só que tem é gente mas, se Deus fez a formiga imitando os modos seus, uma coisa que me intriga é e se a formiga for um Deus?”.
PS: Eram os Deuses astronautas? Não sei e nunca matei astronautas, mas se as formigas forem deuses; foi mal, mil, bilhões de perdões.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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