9 de agosto de 2022
Walter Navarro

Descobri como nascem os anjos e as estrelas


“Como é bom poder tocar um instrumento…”, sempre concordei com este verso do Caetano.
Até tentei. Na Idade do Bronze, eu e minha irmã Nívea torturamos um violão. Abandonei rapidamente as aulas particulares. Meus dedos sangravam nas cordas, tentando dedilhar, “Lá vem o pato, patati, patacolá…” (pato aqui, pato acolá).
Ou seria “O barquinho”? Não, eu paguei o pato, mesmo.
Depois, sempre tive inveja, saudável, de quem sabia fazer música e letra. Até hoje tenho.
Em outro depois, sempre quis saber de onde vem a música, a inspiração. Como nasce uma melodia linda e maravilhosa.
Eu imaginava que a música, como as ideias, ficavam boiando no ar. O talento dos compositores conseguiam prendê-las como o Dirceu Borboleta caçava borboletas, com aquela rede. Aí, botavam ordem nos acordes, ritmos e pronto.
Isso, desde Bach, até Tom Jobim.
E, em todas as entrevistas que assisti, vi, li; ninguém, nenhum grande artista sabia responder, explicar de onde vêm música, letra; a inspiração que também pinta, filma, canta e borda. Eles não sabiam ou não queriam contar…
Assim, fiz como Vinicius de Moraes, atrás do amor: “Por céus e mares eu andei, vi um poeta e vi um rei, na esperança de saber – e ninguém sabia me dizer” – de onde vem a música, a poesia.
Só pode ser sacanagem! Tom Jobim, amigo e parceiro de Vinicius, não contou ao poeta que “se Deus fez o amor profundo, escondeu no mundo, pra ninguém ver”.
Tive mais sorte com Tom e foi sábado, dia 20 de abril de 2019.
Achava que conhecia todas as principais entrevistas de Tom Jobim. Idiota! A gente nunca sabe, acha tudo. Só sei que não sei, não é verdade? Daí a maravilha desta vida cruel, surpresas boas, coisas novas. Sempre aprendendo.
Zapeando aqui e ali no Youtube, pesquei uma entrevista de Roberto D’Ávila, com Tom Jobim, em 1981.
Entrevista de quase 50 minutos, com whisky e piano, no estúdio de Tom.
A conversa começa difícil, Tom meio tímido, gaguejando, suspirando e bebericando seu longo copo escocês. Tom quase esquece o nome de Roberto, como lerão a seguir, espero…
Ele começa com seu nascimento na Tijuca, sua infância e adolescência em Copacabana e Ipanema, um “areal”. Até que, despretensiosamente, Roberto levanta a bola sobre a criação, a inspiração. Tentem imaginar, com as palavras do próprio Tom, que fui copiando, em frases, fielmente, espero…
“…O que me levou a isso (a música) foi uma série de acasos. Não sou uma pessoa particularmente dotada para a música… Eu sou uma pessoa que tive… graves problemas… fiquei assim uma pessoa… Eu acho que aqui com você, na TVE, com o … Roberto… D’Ávila, não é?
Acho que eu posso contar tudo, não posso? Sei lá… eu fico, eu fiquei olhando aquelas calçadas, as nuvens, que passavam em cima de Ipanema. Eu nasci na Tijuca, mas com um ano de idade eu estava naquele areal de Ipanema, com aquelas Pitangueiras, aqueles lagartos, aqueles camaleões, aquela cobra verde e tal, então… Sei lá… Eu ali… soltava as minhas pipas, comecei a conhecer o vento, o vento de lá, o vento de cá e tal……………E……………. sei lá… Foi parar um piano lá em casa… Um piano preto, no fundo da garagem. Eu detestava piano, achava que era coisa de menininha… Gostava de jogar futebol, entende?”.
E não é que eu tinha razão? A música fica no ar. Melhor e mais especificamente na natureza. A de Bach deveria morar em catedrais, mas a de Jobim estava lá, esperando por ele, nas calçadas, nas nuvens, no vento, nos pássaros.
As provas estão em “Águas de Março”, “Nuvens Douradas”, “Passarim”, etc. Estão nos discos “Matita Perê” que parece parceria com Guimarães Rosa e “Urubu”, parceria com Deus…
Para completar, outra entrevista, cinco anos depois, no programa americano “NBC Today Show”, em 1986 e inglês, que deu pra entender até sem legenda.
Fala Tom: “… A chuva da floresta, o mar azul, as pedras, praias maravilhosas; minha música vem deste (meio) ambiente; a chuva, a areia, as árvores, os pássaros, os peixes…”.
Mesmo assim, só para complicar e me chatear, na sequência com Roberto D’Ávila, volta tom jogando água no meu whisky: “(…) Eu não sei como fiz ‘Garota de Ipanema’. Eu faço um negócio assim, que sei lá… Vem de um jeito, depois fica de outro, de repente, tá lá um troço, que faz sentido, entende? (…) Fazer música é muito sofrido, sou um perfeccionista, sempre me choquei contra o paredão de pedra, na necessidade perene de voar”.
PS: Entendi não, Tom. Só reconheci o paredão e essa linda necessidade perene de voar, como um avião ou um urubu.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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