21 de julho de 2024
Walter Navarro

Da meningite, do amor e outras doenças


A primeira vez que ouvi falar em meningite, eu tinha uns 12 anos e morava em Campinas, São Paulo, longe do resto familiar, em Minas.
Lembro me de ter ficado tão assustado, amedrontado, como quando o vi o primeiro defunto.
No caso, defunta e nada infanta. Minha primeira defunta, num caixão, foi minha avó, mãe de meu pai, Adylles, que morreu num 11 de setembro de 1973, junto com Salvador Allende, no Chile.
As parcas lembranças de minha avó restam aquelas dela andando, de um lado para outro, num casarão enorme, em Barbacena, rezando sussurrando, com um terço na mão. Era pequena, frágil, uma avó extremamente silenciosa. Só falava com Deus, acho. Porque – imagino – perdeu um filho muito querido, Newton, de 31 anos de idade. Apendicite, que rima com meningite; não com amor, mas tão fatal quanto.
Voltando à primeira meningite que a gente nunca esquece. Pelas frias espirais telefônicas, soubemos que, em Juiz de Fora, a empregada de minha tia, acho que tia Cecéia (Nilcéia), tinha morrido fulminantemente de meningite.
Para meus 12 anos de idade, este nome feio e novo, parecia um terremoto, uma epidemia de peste, a mesma que matou Gustav Klimt e Egon Schiele, em Viena, 1918. Entre outros milhões mundo afora.
Meningite!
A tentação de entrar no Google é grande, mas, em homenagem aos Mortos da Ilha da Ilusão, vou fazer o que fazia quando tinha 12 anos de idade: consultar um dos 16 volumes da minha enciclopédia (em papel) Delta Larousse. Calmaí, que a coleção está na sala ao lado. Já volto.
Pronto. Em menos de um minuto peguei o volume número 10, contendo coisas e palavras que vão de “mar” a “nor”.
Exatamente em frente ao volume número 10, estava uma foto de minha outra avó, mãe de minha mãe, Anny Rema… Que morreu em 1942, quando minha mãe, Cléa, tinha apenas 8 anos.
Anny Rema morreu de câncer. Começou no seio e alastrou-se. O homem foi à Lua, fez mil guerras, quer ir à Marte e não consegue curar o câncer.
Mas, “again”, voltemos à meningite.
Vamos lá!
Gosto da minha Delta Larousse porque, procurando uma coisa, no caminho, a gente sempre acha outra coisa, muitas vezes inusitada. Na mesma página, 4437, uma foto de “Las Meninas” de Velásquez, Museu do Prado, Madri. Mal sabia eu que, em 2011, veria esta tela ao vivo e em cores sombrias.
Meninas com “Me” de Meningite.
Meningite: “Inflamação das meninges”, muito prazer!
“As meningites se manifestam por violentas cefaleias (dores de cabeça), rigidez da nuca e contratura dos músculos perivertebrais, febre, vômitos e, mais raramente, diarreia (…). A meningite tuberculosa, resultante da disseminação de uma infecção tuberculosa pulmonar, sobretudo nas crianças, é caracterizada pela existência de líquido cefalorraquidiano claro, ‘água de arroz’, contendo sobretudo linfócitos e o bacilo de Koch; mortal antes dos quimioterápicos antituberculosos modernos…”.
Modernos!
A enciclopédia é edição de 1972!
Morrer de meningite em 2019!
Já o amor… Segundo Adoniran Barbosa, o amor “mata mais que bala de carabina, que veneno estricnina, que peixeira de baiano (e de Adélio), mata mais que atropelamento de automóvel, mata mais que bala de revólver…”.
Bom, câncer é câncer.
Agora, morrer de meningite em pleno Século 21?
Morrer de dengue e febre amarela… De doenças medievais como a lepra?
Parabéns, meu Brasil brasileiro.
PS: Fosse eu São Pedro, de vergonha, mandava de volta à Brasília, todo brasileiro que morresse, digamos de Chikungunya. De meningite e amor também. É ridículo. Prefiro que um piano caia sobre mim, desde que em Paris, claro.

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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