8 de agosto de 2022
Colunistas Walter Navarro

Bye-bye e merci

Com exceção do Glauceste Satúrnio, um sabiá, que hoje teria uns 400 anos, nunca tive animais de estimação. Pessoas, algumas… Acho que escolhi errado.

Àquela época, não tinha noção da crueldade e covardia que consta em prender um pássaro numa gaiola ridícula. Achava normal. Nunca mais.

Gatos? São como filhos.

“Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos; como sabê-los?”.

Jamais saberei. Já os gatos são bichos muito suspeitos. Estão nem aí para os donos; são sonsos. E sagrados, em lugares que cultivam múmias, como o Egito.

Cachorros? Aí o bicho pega. Também nunca tive um, para chamar de meu. Em compensação, na casa familiar, eles sempre foram muitos, de todas as raças, tamanhos e personalidades.

Poderia dizer que tenho trauma de cães, mas estaria exagerando. Não sou chegado aos grandes.

Quando tinha 15 anos, fugindo de enorme pastor alemão, quando caminhava para o colégio Progresso, em Campinas, corri para a rua e fui atropelado por um Corcel 1, vermelho. Tinha que ser vermelho! Não fui socorrido e passei maus bocados.

Perna esquerda quebrada, em dois lugares; fratura quase exposta, muito gesso e fisioterapia durante meses.

Poderia confessar também que não daria um bom dono. Afinal, como cuidar de um animal, completamente dependente, se sei cuidar nem de mim?

Apesar disso tudo, nunca tratei mal, bicho nenhum. No máximo, era indiferente.

Indiferente até quando era possível. Como não ter um mínimo de afeto por criaturas tão inocentes e vulneráveis; que trazem tanta companhia sincera, alegria e amor para a família? No mínimo, acostumamo-nos a eles. Suportamos, achamos graça, xingamos, reclamamos. Melhor trocar para suporto, acho graça, xingo, reclamo. Gosto. Do meu jeito.

Então, este texto de despedida vai para o Ameba! Ops! Ameba, para mim, porque minhas irmãs são péssimas para nomes.

Este, que partiu, hoje, dia 1º de agosto 2022, em Barbacena, com “ajuda” de um veterinário, atendia pelo nome de Freddy Dib, Pequeno Príncipe e outras antipatias do amor de minha irmã, Adriana que, claro, como acaba de me dizer, está “dilacerada”. E está mesmo. Nunca vi uma dupla tão unida. Nunca testemunhei amor tão cúmplice, dependência mútua tão forte.

Apelidei-o de Ameba, só para chatear, só de picardia. Comigo, ele realmente era um pentelho e, mesmo assim, valorizo, reconheço e já sinto falta de sua relação, sua devoção para com minha irmã. Este vício que chamam de amor.

Comigo ele agia como se fosse um gato, interesseiro e carente. Só me procurava quando estava sozinho, sentindo-se abandonado. Deitava-se em frente à porta do meu quarto, procurando companhia. Meus barulhos ou o som da TV.

Era um Poodle, certamente nascido do cruzamento com um Diabo da Tasmânia, deitado ao sol ou à sombra, com a barriga para baixo, as patas esticadas, parecia um frango. Ou uma “ovélha” (ovelha velha) como eu o chamava, tentando quebrar um pouco da devoção de minha irmã. Lá em casa, todo mundo sabia que, metade dela iria embora com a partida inevitável do bom e velho Ameba. Ele tinha 10 anos e quilos de problemas de saúde.

Desde que soube, tento, por mensagens, consolar minha irmã, mas não vou conseguir. Missão impossível. Já fui testemunha de várias partidas do tipo. Bichos, para muita gente, são filhos. Como sabê-lo? Vá saber!

Ameba tinha dois hábitos desagradáveis. O primeiro era latir. Como dizia o filósofo Gilles Deleuze, latidos são abomináveis. Como gente que grita. A começar por mim, quando a razão é inútil. Um horror! Todavia, como ele não sabia falar, está perdoado. Menos quando latia às 6h, em frente à minha janela.

O segundo hábito, este sim, me tirava do sério. Com uma casa enorme, cheia de jardins, mato, grama e árvores, o monstrinho aliviava-se na garagem. Se tivesse um quadro, um objeto qualquer, uma caixa minha, era exatamente o que ele regava.

No mais, era um ótimo sujeito. Que vai fazer falta, protegendo, à sua peluda maneira; capengando, mancando e gemendo atrás de minha irmã, o dia inteiro.

Ele parecia um móvel ambulante, lá em casa. E depois de muito tempo, até com móveis nos acostumamos. E sentimos falta quando se quebram ou são devorados por cupins.

Dib Freddy, Freddy Dib ou Ameba, não morreu como móvel. Morreu de vida e de dedicação. Morreu como um perfeito animal de estimação, cumprindo, alegremente, as obrigações que nem sabia ter. Só no instinto, na boa, infalível e velha fidelidade canina. Insubstituível.

Ameba, sobre aquele teu outro estranho hábito! O de ficar latindo para os pássaros, indiferentes, no alto das árvores, te fazendo de bobo. Fica frio, agora você pode latir bem forte, mas lá do alto. Olhando não para cima, mas para baixo. Onde nós também estamos lembrando de você que, com certeza, ainda zela por nós.

PS: Ah! Vou aproveitar; reciclar e provar tua ração. Mas, com cerveja, tá?

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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