A poderosa nudez castigada


Me contaram que, este ano, Arnaldo Jabor fará 79 anos em 12 dezembro e que Francis Ford Coppola já fez 80, dia 7 de abril.
Tudo a ver, nada a ver um com outro.
Por que Coppola é Coppola no mundo inteiro e Jabor é Jabor nem no Brasil?
Coppola fez, entre outros, obras primas do cinema como a trilogia, sem igual, “O Poderoso Chefão” e “Apocalypse Now”.
Jabor fez, entre outros, “Toda Nudez Será Castigada”, “O Casamento”, “Tudo Bem” e “Eu Te Amo”.
A diferença é tão abismal que “O Poderoso Chefão” e “Apocalypse Now” dispensam todo e qualquer comentário.
“Toda Nudez Será Castigada” e “O Casamento” são, no mínimo, as melhores adaptações de Nelson Rodrigues para o cinema.
“Tudo Bem” é muito bom, louco e engraçado, com atores excepcionais, a começar por Paulo Gracindo.
“Eu Te Amo” também é muito bom e fica ainda melhor com a canalhice de Paulo César Pereio e a nudez de Sônia Braga e Vera Fischer. Até a atual bagulho, Regina Casé, está gostosa – claro, o filme é de 1980.
O último de filme de Jabor, “A Suprema Felicidade”, é uma merda. Como pode tanta decadência! O cara vira jornalista e esquece de como fazer cinema. A única coisa maravilhosa no filme é a estupenda nudez, nada castigada, de Tammy Di Calafiori.
À época do lançamento, críticos disseram que o filme de Jabor era seu “Amarcord”, um dos clássicos de Federico Fellini, uma visita à infância. Espero que Jabor não tenha tido uma infância tão chata.
Já “Eu te Amo”, que também é muito engraçado, para mim, é uma “homenagem” a “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, sem a tragédia, o desespero, a tristeza, o lirismo, a genialidade e Marlon Brando.
É claro que, pelo simples fato de ter nascido no Brasil, Jabor nunca seria um Coppola, ítalo-americano.
Mas Jabor poderia ter sido um Glauber Rocha, um François Truffaut, um Almodóvar, um Ettore Scola… Será?
Resta o consolo de que “Toda Nudez Será Castigada”, “O Casamento”, “Tudo Bem” e “Eu Te Amo” são bons filmes e que Coppola, nem Glauber, Truffaut, Almodóvar e Scola conseguiriam fazer. Pra começar, os Estados Unidos, França, Espanha, Itália e nenhum outro planeta têm um Nelson Rodrigues.
E vejam que fizeram muita porcaria baseada em Nelson!
Por que então tanta diferença brutal entre Coppola e Jabor?
Porque o segundo é brasileiro e, até hoje, o Brasil engatinha na Sétima Arte.
Dá para contar nos dedos de Lula os bons filmes brasileiros.
Gosto muito de alguns do Glauber, que não são para principiantes, como “Câncer”, “Hystória do Brasil” “Di Cavalcanti” e “Terra em Transe”. Gosto ainda mais de “O Pagador de Promessas”, “Assalto ao Trem Pagador”, “Pra Frente Brasil”, “A Lira do Delírio”, “A Dama do Lotação”, “Os Sete Gatinhos”, “Nunca Fomos Tão Felizes” e “Bye Bye Brasil”. Claro que esqueço outros alguns.
Provavelmente existem bons filmes brasileiros mais recentes e invisíveis. Tudo que é bom é abafado aqui. Mas a maioria, desta safra mais recente, serve nem como piada infame ou de mau gosto. Desperdício de tudo.
E pensando bem, sei como explicar a penúria, a indigência técnica e intelectual do cinema brasileiro, com a lembrança de uma já longínqua tarde em minha casa.
Há muitos anos eu revia, na TV, “007 Contra o Satânico Dr. No”. Foi o primeiro filme de James Bond, logo, o primeiro com Sean Connery. O filme é de 1962, ano em que nasci.
Quando o filme acabou, zapeando, caí no Canal Brasil e nele, estava um filme com Oscarito, também de 1962.
O filme de Oscarito, em P&B, era uma coisa horrorosa, em todos os sentidos.
O filme de James Bond, que tem 57 anos, nem hoje, 2019, o Brasil conseguiria produzir.
PS: Realmente, é melhor o Brasil se contentar com sua pintura, sua música, sua literatura e seu futebol; mas, tudo isso, claro, antes dos anos 1980.

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