21 de maio de 2022
Colunistas Vera Vaia

Wal Catar Açaí, Presidente!

Armai-vos uns aos outros! Deus acima de tudo. Armas pra cima de todos!

É o que sugere nosso ilustre presidente: Que a população se arme contra um possível “ditador” que, porventura, pretenda assumir o poder.

E quem seria esse ditador, que não tu, presidente?

Não é o senhor que tem agido como um ditadorzinho barato afrontando as instituições? Não é o senhor que tá espalhando por aí que o sistema de urnas eletrônicas não é seguro? (Pra continuar batendo nessa tecla com tanta insistência, dá pra pensar que ele próprio se elegeu de maneira fraudulenta.) Não é o senhor quem conclama as Forças Armadas para “garantir a ordem”, como se as coisas estivessem fora de ordem? (Só pra lembrar, quando o Exército quis botar “ordem” no Brasil, ficaram sentados no trono por 21 anos no melhor estilo ditadura de direita que conseguiram impor.) Não é o senhor que quer porque quer continuar no poder aproveitando o bem-bom do cargo e, sobretudo, se protegendo de uma eventual prisão?

E essa de querer armar o povo, não deu pra entender muito bem. Se o senhor não for eleito vai sair todo mundo por aí atirando a torto e a direito nos responsáveis pelas instituições que garantiram a legitimidade da eleição e em todos que não lhe deram votos?

Fico imaginando a trapalhada que iria ser. A ideia é tão ridícula que beira outra cena igualmente ridícula que aconteceu na última quarta-feira no treinamento de lançamento de foguetes pelo Exército em Goiás.

O projétil lançado de forma desastrosa do Campo de Instrução no Fonte de Santa Bárbara perdeu o rumo feito aqueles busca-pés de festas juninas. O bicho saiu voando e foi parar direto numa área de lavoura em Formosa, que fica nos arredores do Distrito Federal. (A matéria não explica quem estava no comando da operação, mas pela forma atabalhoada do lançamento é bem provável que tenha sido o sargento Pincel da Turma do Didi.)

Sorte a nossa que não estamos em guerra e mais sorte ainda que não atingiu ninguém. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. Menos a plantação, é claro.

Outra estapafurdice da semana, e essa não é engraçada, foi a notícia de que a AGU — Advocacia-Geral da União — está defendendo Walderice Santos da Conceição, a famosa Wal do Açaí, a funcionária fantasminha camarada do então deputado Jair Messias Bolsonaro. A mulher que tocava seu próprio negócio de Açaí em Angra dos Reis era “contratada” como secretária parlamentar do deputado sem jamais ter colocado os pés em Brasília, seu suposto local de trabalho, durante 15 anos. Depois de descoberto o esquema das rachadinhas, Wal do Açaí passou a ser chamada de Wal do Laranjal, numa alusão ao termo “laranja”, muito usado na política que é como fica sendo conhecida a “pessoa que intermedeia, voluntária ou involuntariamente transações fraudulentas, emprestando seu nome, documentos ou conta bancária para ocultar a identidade de quem a contrata”, segundo o dicionário.

Ela está no pacote da ação de improbidade administrativa contra Bolsonaro, movida pelo Ministério Público e que a AGU está rejeitando com base nas mudanças na Lei da Improbidade, aprovada pelo Congresso e, convenientemente, assinada pelo próprio presidente.

E o povo, que não está nem conseguindo mais se alimentar, é obrigado a sustentar defesa de laranja de corrupto. Pode isso?

Depois o sujeito vem falar que temos de impedir que um ditador assuma o poder.

Ah, wai catar coquinho, presidente, ou melhor, açaí!

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Mãe de filha única, de quatro gatos e avó de uma lindeza. Professora de formação e jornalista de coração. Casada com jornalista, trabalhou em vários jornais de Jundiaí, cidade onde mora.

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