22 de abril de 2026
Editorial

Quando o poder perde o senso de humor

A política brasileira, em sua essência, sempre foi um palco fértil para o absurdo, um roteiro tragicômico que dispensa ficcionistas. A recente reação do ministro Gilmar Mendes a um vídeo produzido pelo governador Romeu Zema não é um capítulo novo, mas sim um sintoma agudo de uma velha doença: a perda do senso de ridículo por parte de quem se leva a sério demais.

A resposta de Gilmar Mendes ao vídeo produzido por Romeu Zema parece saída de um roteiro que nem os roteiristas mais criativos do antigo Cabaré do Barata,(o link mostra o programa) de 1989, ousariam assinar sem medo de parecer exagerados. Se Agildo Ribeiro ainda estivesse entre nós, certamente encontraria nesse embate o roteiro perfeito para uma de suas esquetes ácidas, onde a pompa da toga e o pragmatismo mineiro se chocam de forma tão desproporcional que o resultado só pode ser a gargalha ou o espanto.

Há algo de profundamente irônico quando uma peça de comunicação política — ainda que discutível, ainda que provocativa — é tratada como se fosse uma ameaça institucional de proporções épicas. O tom solene, quase indignado, contrasta com o próprio objeto da indignação: um vídeo. Um vídeo! Não um decreto, não uma ruptura formal, não um ato de força — mas uma peça que, goste-se ou não, flerta com a linguagem da sátira política.

A indignação de Gilmar, carregada de uma ironia que corta mais do que qualquer despacho jurídico, transforma o vídeo de Zema em uma peça de humor involuntário antes mesmo de qualquer análise política séria. É o ápice do “nonsense”: um ministro do Supremo Tribunal Federal reagindo com uma intensidade absurda a uma peça de comunicação que, por si só, já parecia deslocada da realidade. Essa dinâmica de ação e reação evoca a estética dos antigos programas de humor, onde a crítica política não precisava de notas oficiais, mas sim do timing preciso e da hipérbole para desnudar as contradições do poder. No fundo, a reação do ministro serve como um espelho de um Brasil que insiste em se levar a sério demais enquanto tropeça nas próprias pernas, transformando o debate público em um grande espetáculo de variedades.

Humor e crítica política sempre andaram juntos, como o queijo e a goiabada da nossa identidade. Do Pasquim à TV Pirata, de Millôr Fernandes a Casseta & Planeta e ao próprio Cabaré do Barata, rir do poder nunca foi apenas um escape, mas uma ferramenta de fiscalização, um jeito de dizer: “Nós estamos vendo vocês, e não estamos impressionados”.

E é aí que mora o absurdo. Porque o Brasil já riu de si mesmo em situações muito mais delicadas. Nos tempos em que o poder era caricaturado sem cerimônia. Generais, ministros, figurões — todos passavam pelo filtro ácido do humor. E, curiosamente, o mundo não acabou por causa disso. Pelo contrário: o riso funcionava como válvula de escape e, mais do que isso, como forma de crítica social.

Historicamente, o humor e a política sempre caminharam de mãos dadas, servindo como a ferramenta definitiva para traduzir o inexplicável. Quando a realidade se torna tão extravagante que a lógica formal falha, entra em cena o viés do absurdo. Ao ver Gilmar Mendes disparar contra a produção de Zema, somos transportados de volta àquela atmosfera de sátira de costumes onde as figuras de autoridade eram despidas de sua solenidade pelo ridículo da situação. O que testemunhamos não é apenas um conflito de narrativas, mas a prova de que o roteiro da política nacional continua sendo escrito pelos mesmos redatores invisíveis que faziam do escárnio a nossa forma mais honesta de compreensão nacional. No grande cabaré de Brasília, o vídeo de um e a resposta do outro são apenas dois atos de uma peça que começou muito antes de nós e que, para o bem ou para o mal, ainda nos faz rir por puro desespero.

A diferença é que, naquele tempo, o humor era compreendido como linguagem — não como crime. Hoje, parece haver uma dificuldade crescente em distinguir ironia de afronta, crítica de subversão, caricatura de ataque institucional. Quando uma autoridade reage com desmedida a algo que carrega traços de sátira, o efeito colateral é inevitável: amplifica-se exatamente aquilo que se pretendia conter. É o velho paradoxo — quanto mais se combate o riso, mais ele se torna contagioso.

A reação, portanto, diz menos sobre o vídeo de Zema e mais sobre o momento que atravessamos. Um tempo em que a sensibilidade institucional parece hipertrofiada, enquanto a tolerância ao dissenso — sobretudo quando vem embalado em tom jocoso — encolhe. O que se revela é uma pele de uma finura desconcertante para quem ocupa uma das cadeiras mais importantes do país.

Cria-se a impressão de uma casta de intocáveis, flutuando em um Olimpo de Brasília, imune não apenas às leis dos homens comuns, mas também às suas risadas.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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