
A política brasileira, em sua essência, sempre foi um palco fértil para o absurdo, um roteiro tragicômico que dispensa ficcionistas. A recente reação do ministro Gilmar Mendes a um vídeo produzido pelo governador Romeu Zema não é um capítulo novo, mas sim um sintoma agudo de uma velha doença: a perda do senso de ridículo por parte de quem se leva a sério demais.
A resposta de Gilmar Mendes ao vídeo produzido por Romeu Zema parece saída de um roteiro que nem os roteiristas mais criativos do antigo Cabaré do Barata,(o link mostra o programa) de 1989, ousariam assinar sem medo de parecer exagerados. Se Agildo Ribeiro ainda estivesse entre nós, certamente encontraria nesse embate o roteiro perfeito para uma de suas esquetes ácidas, onde a pompa da toga e o pragmatismo mineiro se chocam de forma tão desproporcional que o resultado só pode ser a gargalha ou o espanto.
Há algo de profundamente irônico quando uma peça de comunicação política — ainda que discutível, ainda que provocativa — é tratada como se fosse uma ameaça institucional de proporções épicas. O tom solene, quase indignado, contrasta com o próprio objeto da indignação: um vídeo. Um vídeo! Não um decreto, não uma ruptura formal, não um ato de força — mas uma peça que, goste-se ou não, flerta com a linguagem da sátira política.
A indignação de Gilmar, carregada de uma ironia que corta mais do que qualquer despacho jurídico, transforma o vídeo de Zema em uma peça de humor involuntário antes mesmo de qualquer análise política séria. É o ápice do “nonsense”: um ministro do Supremo Tribunal Federal reagindo com uma intensidade absurda a uma peça de comunicação que, por si só, já parecia deslocada da realidade. Essa dinâmica de ação e reação evoca a estética dos antigos programas de humor, onde a crítica política não precisava de notas oficiais, mas sim do timing preciso e da hipérbole para desnudar as contradições do poder. No fundo, a reação do ministro serve como um espelho de um Brasil que insiste em se levar a sério demais enquanto tropeça nas próprias pernas, transformando o debate público em um grande espetáculo de variedades.
Humor e crítica política sempre andaram juntos, como o queijo e a goiabada da nossa identidade. Do Pasquim à TV Pirata, de Millôr Fernandes a Casseta & Planeta e ao próprio Cabaré do Barata, rir do poder nunca foi apenas um escape, mas uma ferramenta de fiscalização, um jeito de dizer: “Nós estamos vendo vocês, e não estamos impressionados”.
E é aí que mora o absurdo. Porque o Brasil já riu de si mesmo em situações muito mais delicadas. Nos tempos em que o poder era caricaturado sem cerimônia. Generais, ministros, figurões — todos passavam pelo filtro ácido do humor. E, curiosamente, o mundo não acabou por causa disso. Pelo contrário: o riso funcionava como válvula de escape e, mais do que isso, como forma de crítica social.
Historicamente, o humor e a política sempre caminharam de mãos dadas, servindo como a ferramenta definitiva para traduzir o inexplicável. Quando a realidade se torna tão extravagante que a lógica formal falha, entra em cena o viés do absurdo. Ao ver Gilmar Mendes disparar contra a produção de Zema, somos transportados de volta àquela atmosfera de sátira de costumes onde as figuras de autoridade eram despidas de sua solenidade pelo ridículo da situação. O que testemunhamos não é apenas um conflito de narrativas, mas a prova de que o roteiro da política nacional continua sendo escrito pelos mesmos redatores invisíveis que faziam do escárnio a nossa forma mais honesta de compreensão nacional. No grande cabaré de Brasília, o vídeo de um e a resposta do outro são apenas dois atos de uma peça que começou muito antes de nós e que, para o bem ou para o mal, ainda nos faz rir por puro desespero.
A diferença é que, naquele tempo, o humor era compreendido como linguagem — não como crime. Hoje, parece haver uma dificuldade crescente em distinguir ironia de afronta, crítica de subversão, caricatura de ataque institucional. Quando uma autoridade reage com desmedida a algo que carrega traços de sátira, o efeito colateral é inevitável: amplifica-se exatamente aquilo que se pretendia conter. É o velho paradoxo — quanto mais se combate o riso, mais ele se torna contagioso.
A reação, portanto, diz menos sobre o vídeo de Zema e mais sobre o momento que atravessamos. Um tempo em que a sensibilidade institucional parece hipertrofiada, enquanto a tolerância ao dissenso — sobretudo quando vem embalado em tom jocoso — encolhe. O que se revela é uma pele de uma finura desconcertante para quem ocupa uma das cadeiras mais importantes do país.
Cria-se a impressão de uma casta de intocáveis, flutuando em um Olimpo de Brasília, imune não apenas às leis dos homens comuns, mas também às suas risadas.

